O Velho andarilho

29/05/2012

Por Odilon Sergio Santos de Jesus

O velho andarilho caminhava por uma estrada de terra vermelha. Seguia por um caminho árido  de pedra e graveto e de poeira que se formava a cada batida da chinela no chão. Marchava decidido. Nem tanto por saber  onde  era o fim da caminhada, mas pela certeza de que  já não podia voltar ao começo. Alongava a vista,  de vez em quando, tentando espreitar o que viria mais adiante no caminho, mas nada via além de mais pedras, poeira e gravetos. Quando a noite caia, o corpo   jogado na beira da estrada fitava o céu estrelado.  Vinham então as lembranças.  Eram tantas que a cabeça zumbia, numa confusão de  pensamentos, sentimentos. Batia uma saudade de coisas. E já nem sabia mais se as tinha realmente vivido ou se eram puros devaneios.  Sentia uma falta, um vazio. Melhor espantar essas tristezas! Rezava então para que a noite com seu manto escuro e espesso, cegasse  os seus olhos, e as vistas só alumiasse novamente no alvorecer do outro dia.

Certa vez, quem diria, o velho cansou da caminhada. E por mais que o seu bom senso lhe ordenasse. Prossiga!  As pernas não lhe obedeciam. Empacou pior do que mula contrariada. Já não via mais sentido em seguir sem saber seu destino. Então, num rompante de desatino, catou o saco, jogou nas costas e voltou pela estrada. Não mais suportava a saudade. Queria rever os lugares, os amigos, os amores deixados para trás. Reviver as lembranças que lhe assombravam pelo caminho .   Depois de muitos dias de caminhada chegou num pequeno vilarejo. Estava tudo meio diferente. As casas, antes de um colorido vivo, estavam desbotadas. Os telhados cobertos de um lodo, uma mistura de  folha preta com terra molhada. Nada parecia com o lugar de onde partira na juventude. Chegou mesmo a acreditar que tivesse errado o caminho. Até que avistou lá longe uma casa de pedra, que tinha na frente um poço. Apurou os olhos e mirou  fixamente para se certificar de que não estava vendo além da conta. Sim. Era mesmo a casa onde viveu o grande amor da sua adolescência. Foi então tomado de um ânimo, que já nem sentiu mais o cansaço da caminhada. Na medida em que seus passos se aproximavam da casa, acelerava a batida de seu coração. Como seria reencontrar depois de tantos anos a grande paixão da sua adolescência?

Bateu  três vezes na porta. Ouviu um latido de cachorro  vindo  lá do fundo em direção à porta. Veio em seguida, uma voz de mulher gritando. Cala Tainha! Cala Tainha! Quem taí? As suas pernas tremeram, pensou em desistir.  Ai Meu Deus! O que é que vim fazer aqui! Nem deu mais tempo de recuar. A porta se abriu abruptamente e ele então viu na sua frente uma senhora de cabelos brancos prateados. Pois não? Ele, com voz trêmula, respondeu: A senhora me desculpe bater assim na sua porta. È que conheci uma dona muitos anos atrás que morava aqui nesta casa. O nome dela é Raimunda. A mulher espantada retrucou. Sou eu! Ela, então , examinou lentamente o seu rosto, olhando-o de todos os ângulos até que deu um pulo e com as mãos espalmadas, gritou. É Quinho? Aliviado por ela ter se lembrado dele, o senhor respondeu. Sou eu mesmo, Mundinha. Você tá tão mudada!A mulher gargalhou, e foi logo puxando o visitante pelo braço. Depois de acomodá-lo numa poltrona rasgada, sentou-se de frente pra ele num banco de madeira  e se puseram a conversar, recordando as pessoas e os acontecimentos da juventude. Já pelas cinco e meia da tarde, a mulher interrompeu a conversa, preocupada porque  na animação da prosa nem tinha se apercebido que não  preparara a janta pro marido e pros filhos que chegariam a poucos instantes da roça. Pediu licença e  se dirigiu até a cozinha, sem antes dizer para que ele ficasse a vontade  e aguardasse para a  janta com a sua família.

Enquanto a mulher remexia as panelas na cozinha, o senhor sentado na poltrona levantou os olhos e se pôs a observar as fotos pregadas na parede. Logo acima, viu uma foto em preto e branco, contornada pela moldura dourada. Nela aparecia uma mulher vestida de noiva. Dava pra reconhecer que era Raimunda ainda jovem, com um sorriso tímido, abraçada por um homem de bigode e aspecto sisudo, certamente seu marido. Abaixo, fitou a foto de três meninos, aparentando a idade de três, cinco e sete anos. Ficou pensativo, olhando as fotos. Até que se deu conta que aquela euforia da qual foi tomado durante tarde, agora dera lugar a um sentimento nostálgico. Via ali diante de seus olhos toda uma vida da qual não fizera parte. Nas paredes da casa, nada mais recordava o tempo em que vivera a sua paixão juvenil. Tudo em volta falava de outra estória,  não mais do que tinha vivido ali com seu amor de juventude. Levantou-se, de um golpe, da poltrona e  sem que a mulher percebesse, o velho pegou seu chapéu de cima da mesa, ajeitou a trouxa nas costas e partiu sem fazer barulho.

Uma resposta to “O Velho andarilho”

  1. Rodrigo de Melo Bezerra Says:

    (…) Via ali diante de seus olhos toda uma vida da qual não fizera parte. (…)

    Simplesmente, lindo!


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