O cirquim do chulé

30/05/2012

Por Nilson Galvão

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“Com um pouco de sorte você não encontrará o que procura”, lê-se numa página do livreto vendido a R$ 30 na lojinha de souvenirs. Tudo é tão caro, a começar pelo ingresso, e incluindo refrigerantes, sucos, pipocas. Um desavisado passará em branco uns dois anos atrás, na primeira aparição da trupe em Salvador, e não apenas por canguinhagem, mas por um desses preconceitos intelectualóides contra toda a tralha kitsch deste mundo, toda a tola ostentação burguesa essas coisas.

Convencido por um ingresso de presente de aniversário e pelo entusiasmo da sua cara metade, esse mesmo desavisado ainda assim irá pensar em retórica vazia ao ler a frase no livreto. Mas ficará boquiaberto ao constatar lá dentro, na grande oca de lona, o quanto os caras levam a sério esse papo furado a ponto de entortar de verdade a cabeça da gente. Sim, o Cirque du Soleil, senhoras e senhores: ou do chulé, no trocadilho de uma espirituosa velhinha companheira de incursão.

Apelido carinhoso, pois pois, afinal daqui pra frente puxaremos o saco do tal cirquim. E é preciso alertar: aqui não fala um especialista, mas um orêia seca acostumado mesmo aos cirquinhos do interior da Bahia – com upgrade no Portugal e no Tihanny, por conta da overdose circense em plagas soteropolitanas de uns tempos pra cá. Parêntesis aqui: uma pena, pois não fosse o preconceito teria visto o baiano Jailton Carneiro, da Boca do Rio, ex-Picolino, mostrar sua arte no espetáculo Quidam, trazido a Salvador na vinda anterior do Soleil.

Desta vez, sem conterrâneos, fomos de “Varekai”, ou “qualquer lugar” em romeno, como explica o sabidório do folheto. Por onde começar? Pelo fato de não haver mágico, a não ser no número de humor, porque o espetáculo em si é puro ilusionismo. Se o circo foi superado pelo teatro e depois pelo cinema e a tevë e toda tralha eletrônica em sua ideia de máquina de fantasia, o Soleil consegue trazer o público mesmerizado de volta à lona original. Nos faz sentir como num filme em 3D, 4D, 6D, ao mesmo tempo onírico e real, táctil e rente às nossas fuças e cabeças.

Está tudo ali ao alcance de olhos & ouvidos & narizes & etc, como num set de filmagem rolando ao vivo, absorvendo a sua atenção e mantendo viva aquela outra ideia também nascida com o circo: a da exibição de super-habilidades no limite do risco e do ridículo, homens e mulheres à beira de quebrar os seus pescoços pelo simples afã de embasbacar a plateia e dela extrair la plata, la bufunfa.

Com um detalhe importante: no Soleil, graças àquele renitente hábito burguês de botar preço – salgado – em todas as coisas extraordinárias, reúnem-se os maiores e mais bem apetrechados malucos do planeta, milagrosamente preservados depois de inumeráveis sessões de exibição suicida. Gostamos disso, é humano: os caras não caem por um triz, então são todos uns virtuais espatifados e a gente lá, querendo ver sangue e não querendo ao mesmo tempo. Mais burguês impossível, como provam os octógonos globais do UFC.

Tem o lado yuppie também, claro: os astros do Soleil são excelentes, perfeitos, então ficamos impressionados porque ali está uma gente bem sucedida, supostamente bem paga, a encenar no topo da escala circense universal números muitas vezes comuns até em sinaleiras, mas com a diferença do nível de qualidade e do algo mais, aquela mise-en-scene toda.

E aí chegamos ao mais importante, pro bem e pro mal: o apuro estético, o senso de narrativa. A máquina de ilusões a todo vapor, então você se deixa absorver pelo universo paralelo e, estando em qualquer lugar junto com o ícarozinho caído das nuvens, se deixa levar por uma sucessão de imagens, objetos, cenas, proezas. Como Alice pra dentro da toca do coelho: o fauno-turrão-professor-pardal, o seu lampadinha de estimação, a namorada de Ícaro, diáfana, o cabaré onde os palhaços se esbaldam.

Não há propriamente uma história mas é como se houvesse. Números estritamente circenses vão sendo contrabandeados pra dentro da sucessão de truques cênicos, a gente deixa tudo fazer sentido e nessa batida vão sendo vencidas as resistências ao tal cirquim. Ao ponto, imaginem, de um mão-de-vaca notório acabar convencido: vale mesmo a pena pagar por isso.

É luxo, sim, mas não necessariamente ostentação. Luxo no sentido de se deixar levar pela profusão de memes pra todos os lados, numa espécie de do-in antropológico, como diria o ex-ministro da Cultura. São espertos e espirituosos os caras do chulé. No tal folheto inclusive tem lá uma história sobre um espetáculo erótico feito por eles, em cartaz em outras plagas. Aí você fica imaginando, sei lá, o Kama Sutra a dez metros do chão – e se nesse aí vai encontrar ou não aquilo que procura. Pelo sim, pelo não, é preciso mesmo reconhecer: impagável, esse chulé.

Foto: Bruno Pimentel

2 Respostas to “O cirquim do chulé”


  1. Nilson,
    Parabens pelo artigo!
    Depois de sua analise fico me sentindo um pouco besta por fazer parte dos preconceituosos intelectualoides contra a tralha kitsch e a tola ostentação burguesa. Mas me senti assim, nada mais classe media do que apertar o orcamento pra dar uma fortuna pra este povo do Circo Chule (adorei o nome). Nao fui. E nao vou. Acho o fim o Bradesco patrocinar (o q? e os ingressos na casa do carai pagam o q exatamente?). Quer dizer, um banco patrocina e a gente ainda tem q continuar patrocinando estes caras? Tou fora. Para ver as incriveis acrobacias compro um DVD pirata. Muito mais honesto.


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