Wagner Moura e Legião: ator quase perde para a própria grandeza

09/06/2012

Por Marcos Pierry

Não, Wagner Moura não se iguala a Renato Russo à frente dos vocais da Legião Urbana. Nenhuma das 15 mil pessoas presentes ao Espaço das Américas, em São Paulo, terça e quarta-feira, pensava o contrário disso antes dos shows em tributo à mega banda brasileira de pop rock. Nem os dois músicos da formação original – Dado Villa-Lobos (guitarra), Marcelo Bonfá (bateria) – e muito menos o próprio ator baiano.

Por que, então, tanta gente estava ali ou no sofá em casa, fazendo a MTV bater recordes de audiência? Nostalgia, curiosidade, apenas para curtir o instrumental? A anti-campanha de parte da imprensa e protestos nas redes sociais transformaram a experiência numa aventura sem precedentes para os envolvidos, especialmente o público, que, não há como negar, emocionou-se de ponta a ponta. Basta ver as apresentações, disponíveis na web e logo em DVD nas lojas.

Ao vivo, não demorou para uma coisa ficar bem clara: as duas grifes do showbiz não estavam juntas somente em busca do cachê ou, como se viu dias antes, da aprovação da mídia; tinha coração no meio. Convidado pela emissora musical a integrar o projeto, Wagner fez um único pedido: a presença no palco do guitarrista Gabriel Carvalho, fiel escudeiro da banda Sua Mãe, que o tem como titular nos vocais. Quanto a Dado e Bonfá, por motivos óbvios, nada tinham a perder.

Todos os músicos se abraçaram antes de dar partida à odisséia de clássicos, começando por Tempo Perdido, Fábrica e Andréa Dória, canções do álbum Dois (86). Desse momento até as duas horas seguintes, o show foi das mais tocantes declarações de amor que um ilustre fã já pôde prestar a um ídolo. Íntegro, sem grandes efeitos de cenário, make up ou figurino, capitão Moura caiu de peito aberto, e sem backing vocals de proteção (como Jagger, por exemplo, utiliza há algum tempo), no repertório sagrado da Legião, disparando lirismo e sentimento a cada verso cantado. O que ator reforçava ao fazer comentários de uma música à outra ou cantando mesmo quando o microfone apresentava defeitos.

Visivelmente tenso na primeira metade, Wagner voltou muito mais dono do pedaço para um dueto de Ainda É Cedo com Villa-Lobos nos vocais. Ter um músico do porte de Andy Gill, guitarrista do Gang of Four, no palco à essa altura do show foi um luxo que só poderia ser melhor com outra lenda no palco, o baixista Bi Ribeiro (Paralamas) na primeira noite.

Na platéia, a confirmar o êxtase, outros medalhões da geração 80 – a exemplo de Marina (que no passado gravara Ainda É Cedo), Kiko Zambianchi e João Gordo – entravam novamente para história, dessa vez como testemunhas oculares. O cineasta Toniko Mello, diretor do longa-metragem Vips (2010), parecia não acreditar no que via e ouvia. No filme, Moura, acompanhado de Sua Mãe, pilota um cover visceral de Será, primeiro hit da banda brasiliense.

 

E a segunda noite certamente foi ainda melhor, ao menos do ponto de vista técnico, com o bônus de ainda ter contado com a inclusão de Faroeste Caboclo no repertório. Resultado: Moura, com o seu português errado, fez o imperfeito deixar o passado e se projetar como o melhor presente que a Legião e seus fãs poderiam ganhar após 30 anos e 15 milhões de cópias.

No maior desafio de sua carreira, montar Shakespeare com tradução própria depois de ter se tornado galã de novela, capitão Moura enfrentou a ira da maior crítica de teatro do país, Bárbara Heliodora, papisa nas lavras do autor inglês. Agora, com 30 milhões de espectadores, graças a trabalhos antológicos como os Tropas e Carandiru, o inimigo foi ainda mais voraz: uma bizarra e paranóica desconfiança dos chamados formadores de opinião.

 

Dar tão certo incomoda no país do futuro de Stefan Zweig, suicidado há seis décadas. Lembram do Tom Jobim e da Carmem Miranda? Populares, geniais, internacionais e questionados até a medula. Deixa pra lá… Como disse Luiz Gonzaga, a patente do nome teve valimento. E o capitão fez do que parecia ser um voto de pobreza artístico uma noite musical daquelas. Ninguém pediu para sair.

 

 

 

Uma resposta to “Wagner Moura e Legião: ator quase perde para a própria grandeza”

  1. Marcos Lima Says:

    Comentário perfeito! Curti muito o show. Valeu a pena.


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