A peleja do Chiclete com o Samba de Cachoeira

24/06/2012

Por Josias Pires

O post de Francisca Marques sobre o assalto oficial do Chiclete com Banana aos cofres públicos de Cachoeira gerou um rico debate no Facebook. Até agora 56 pessoas compartilhamento o texto e muitos comentários foram publicados sobre as relações entre música e comércio musical, entre apaixonados pela arte e negócios de comerciantes públicos e privados.

O designer Athos Sampaio defende que os sambadores e sambadoras ganhem o suficiente para viver do samba e que isto estimularia os mais jovens a manterem esta tradição musical; e admite que esta não é, evidentemente, a posição dos gestores públicos.

“Público massivo faz sentido para um prefeito? Claro, que faz. É um político. Só trabalha com casas decimais altas. Qualquer prefeito. Se importa com música? MÚSICA?”, escreveu.

O episódio serve, como já apontara Francisca e reitera a técnica do Museu Villa Lobos, Dil Fonseca para trazer ao debate a política de patrimônio imaterial. A verdade é que o Estado carece de instrumentos e recursos adequados para acompanhar pari passu a trajetória e os impactos sobre o bem cultural reconhecido como patrimônio.

“Afinal para onde estamos indo e para que serve tudo isso, se, na maioria dos casos, as decisões na produção cultural são, efetivamente, tomadas seguindo práticas locais clientelistas? , questionou.

A questão é aprofundada pela antropóloga do Iphan/Unesco, Letícia Costa Rodrigues Vianna, destacando o papel ativo dos sambadores e sambadeiras, que marcaram posição na disputa com o poder local. Este não os considerou, acredita, por serem elitistas e racistas, menosprezando, assim, “o que é genuino e nativo, para valorizar a cultura de massa . Se o Estado reconhece o valor patrimonial … se a Unesco reconhece … mas um gestor municipal não reconhece … não trata direito … há muito a trilhar em termos de política pública …”, escreveu.

O músico Tuzé de Abreu fez um contraponto no debate, lembrando que estamos assistindo à transformação do próprio São João “e o jovem moderno (que é o principal alvo desta festa e dos políticos) quer mesmo é o Chiclete”. Além disso, aponta Tuzé, “os belos grupos de samba de roda são amadores , não são mesmo profissionais da arte. Não se preparam pra isso. O Chiclete é uma potencia profissional. Mais ainda, parafraseando Cristo “Dai a César (o público) o que é de César”, escreveu.

Neste ponto intervir também no debate, lembrando que a transformação, a dinâmica da cultura é algo absolutamente “natural”, constante, cotidiano. Quanto a isto nenhuma dúvida. No entanto, parece-me que a questão situa-se no sentido que os gestores públicos da Bahia deram a essas transformações da cultura popular no Estado, apoiando, potencializando, reverberando, e financiando a indústria de uma música de qualidade duvidosa aqui instalada nas últimas décadas.

Diferentemente do que ocorre no Rio de Janeiro, em que o samba sempre ocupou o centro da cena e a juventude – inclusive de classe média – gosta mesmo do samba, na Bahia nossos gestores e empresários da músicas trataram de impor ao público um outro gosto musical, quase aniquilando o samba em nome da tal axé music, p. ex.

De novo é a luta do dragão da maldade contra o santo guerreiro. Grupos de samba formados por jovens, atualizando o samba de roda de Cachoeira, p. ex., certamente seriam formados se essa matriz cultural recebesse a reverência, a difusão e o apoio merecidos. O que afastou os jovens do samba de roda foi o desprezo das “elites” políticas e empresariais em relação ao samba da Bahia. Educação de péssima qualidade e mercantilização da cultura, isto sim, são alguns dos aliados dos chicletes para que os jovens adotem o lixo como se arte fosse …

De pronto Tuzé de Abreu respondeu: “Acho que, de algum modo, o poder público tinha que fortalecer o samba de roda, para que ele tivesse um mínimo de “competitividade” (sei que a palavra não é boa, mas foi a que me ocorreu). Como está, a situação é mesmo o Dragão da Maldade, poderosíssimo , contra o santo guerreiro mundanamente enfraquecido, a ponto da maioria do público que realmente frequenta essas festas (porque ainda tem o problema de que o público – como eu – do samba de roda não se dispor a entrar naquele mar bravio.

Tuzé continua afirmando que o “poder público, que em si costuma ser interesseiro e interessado em ganhar votos, contrata os eleitos da maioria que, temos que ser absolutamente honestos, está infinitas vezes + bem preparado para uma performance de som, luz, cor e atualidade. Pode doer dizer isso, mas é verdade.

Sendo + chato ainda, continua Tuzé, ontem, depois de trabalhar numa peça que estou fazendo por encomenda, fiquei algum tempo na TV Globo, vendo boa parte do São João de vária cidades do Nordeste. As bandas mais tradicionais (com exceção de Dominguinhos) estão gerando cada vez menos interesse (fiquei reparando o público). Quando entrava uma banda com naipe de sopros, guitarra, teclados, baixo, etc., o público respondia muito melhor. Juntava + gente, se dançava +, etc. Em Terezina houve até uma orquestra sinfônica que, pra minha surpresa, teve uma ótima reação popular. Acho que cabe ao poder público incrementar as bandas tradicionais e criar nichos (como o Pelô no carnaval) onde elas “reinem”. Competir é impossível. É o mesmo que querer acabar com a pirataria quando todos podem copiar nos seus computadores…”, escreveu.

Sugeri, então, que devemos pensar em algo mais ambicioso do que reservar nichos para difundir essas expressões culturais – precisamos de uma política que aponte para o conhecimento profundo e a reelaboração estética daquelas matrizes para que possam ser devolvidas ao público o melhor do melhor num fecundo diálogo entre tradição e contemporaneidade.

Ao que Tuzé de Abreu retrucou afirmando que o “aprofundamento da questão é o ideal. Falei com mais ênfase apenas pragmaticamente sobre apresentações regulares em São João, Carnaval , etc.”. E lamenta que no país, no estado e no município onde vivemos “dificilmente um governo dá continuidade ao que fez o anterior , sobretudo na Cultura. Sou testemunha disto , desde o governo de Roberto Santos, o mais ético que pude acompanhar. Assim fica difícil. Veja que Gilberto Gil teve uma atuação estruturante , minorando o problema de favorecimentos . De repente a coisa como que mudou. Aqui , a mudança de secretário também não foi estruturante. Na Gregório de Mattos nem se fala. Arrasaram com o ótimo planejamento de Paulo Costa Lima. Aí fica difícil…”,

O mesmo problema repete-se na maioria dos municípios da Bahia (e quiçá do Brasil), chama a atenção o fotografo Adenor Gondim: ”contratam a peso de ouro trios elétricos e artistas alheios a cultura local e quando trata das atrações locais querem pagar a preço de latão. Isso acontece em Cachoeira, Jacobina, Santo Amaro da Purificação, Salvador e centenas de municípios do estado da Bahia. Lamentavel!”, protesta.

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