Ouro Preto e os descaminhos da memória filmográfica

26/06/2012

Foto: Victor Schwaner

Por Marcos Pierry

Apesar de contar com 70 filmes em sua sétima edição, finalizada segunda-feira 25, a Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP, que tem como lema o “cinema patrimônio”, investe alto em uma programação de seminários, debates e workshops voltados ao universo da memória cinematográfica – restauração, preservação e difusão, além de áreas afins e/ou implicadas, como a formação e educação e a elaboração, aplicação e gerenciamento de políticas públicas para o setor. À pauta afiada, soma-se o plantel de especialistas, a começar pelo francês Alain Bergala, talvez o mais ilustre entre os presentes em 2012.

Pela trajetória acumulada ao longo de cinco décadas, os homenageados deste ano – os irmãos Reginaldo e Roberto Farias e Gustavo Dahl, falecido em 2011 – legaram um briefing mais que oportuno para as discussões: Reginaldo, um galã de excelentes atuações desde Porto das Caixas e Assalto ao Trem Pagador, do início dos anos 60; Roberto, um artífice do cinema popular desde o período das chanchadas e posteriormente de produções com Roberto Carlos e Os Trapalhões, fora a marcante gestão no comando da Embrafilme, no período (1974-79) em que o público do filme brasileiro e a quantidade de salas de exibição nunca foram tão numerosos. E Dahl, como pensador, crítico, montador, diretor e também gestor, fez a cabeça de muita gente fundamental do cinema verde e amarelo e toda a diferença no momento da criação ou reformulação de estruturas como a própria Embrafilme, o CBC e a Ancine.

Magalhães: desdém pelo Brasil que não começa em SP

Com tanta coisa boa (e importante) acontecendo, muitos não esperavam a tungada da dupla do Minc que participou de uma das mesas de debate – denominada Quais as políticas públicas, critérios e procedimentos gerenciais no âmbito da preservação audiovisual no Brasil? Foi após a manifestação da pesquisadora Laura Bezerra, da UFBA e do portal Filmografia Baiana, que renovou uma cobrança recorrente de quem atua no segmento da memória fílmica mas vive fora de São Paulo: em resumo, mais desenvoltura e menos centralização por parte da Cinemateca Brasileira no atendimento às demandas dos outros estados, quem sabe uma espécie de posto avançado do órgão em regiões estratégicas. Não sem antes ressaltar os esforços do Ministério para com o CTAV e a Cinemateca.

Ao que Carlos Magalhães, diretor da CB, que é vinculada à SAV/Minc, respondeu: “A Dimas quer fazer, quer organizar? A gente dá o suporte técnico. O secretário Meirelles veio conversar e depois o outro nem nos respondeu (…) Eu nem sei o nome dele (referia-se a Albino Rubim); ele que consulte os arquivos. Nossa negociação é com a secretaria.” E seguiu acusando de modo objetivo um inimigo abstrato: a subjetividade com que supostamente alguns interlocutores conduzem seus pleitos à Cinemateca.

Para um dirigente de órgão federal, portanto com contas a prestar a todo o território nos termos do chamado pacto federativo, soou deselegante. Plateia perplexa, a defesa-ataque de Magalhães ficou como um pito do dono da bola aos primos pobres que desejam participar do mesmo jogo. Só Faltou chamar-se também Antônio esse Carlos, que passa longe de um Langlois.

Ana Paula Santana, titular da SAV, ao seu lado na mesa, turbinou o soneto, dizendo que o Brasil é um país de dimensões continentais e que “às vezes a gente acha que tem que produzir, preservar do Oiapoque ao Chuí e não dá.” José Álvaro Moisés não conseguiu, nem Silvio Da-Rin, nem Orlando Senna, prosseguiu a secretária. “E eu também prefiro não fazer a falsa promessa de uma nova cinemateca (em outro estado) porque o investimento é muito alto.”

Necessária ladainha

Além de pesquisadores como a Laura e Milene Gusmão, da Uesb, o cineasta Orlando Senna e o curador Petrus Pires, que vem ressuscitando a filmografia do pai, Roberto Redenção Pires, havia três curtas locais programados (Desterro, de Claudio Marques e Marília Hugues, Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, e Fake Me, de Marcus Curvelus). O nome de Pires consta ainda no catálogo do CineOP, no currículo de Luiz Carlos Lacerda (For All), que foi assistente do cineasta baiano e em Ouro Preto apresentou justamente o filme de memória sobre outro filme, A Mulher de Longe de Longe, realizado pelo escritor Lúcio Cardoso.

Dispensável prosseguir com a choradeira de baiano; o pomo deve ser o da continuidade do debate e da mobilização permanente. Em quais condições de preservação se encontrarão esses filmes dentro de cinco, dez anos? Quais critérios valerão para lhes garantir a adequada conservação? Quanto custa para o poder público (federal, estadual…) manter um curta-metragem (baiano, paulista, acreano…) vivo, em condições de uso? Portanto cabe interrogar e buscar estratégias locais de ação frente a uma estrutura federal que parece tutelada pela própria insanidade administrativa de um ministério que volta e meia transgride os próprios protocolos e só perdeu força e orçamento na gestão Dilma.

Guerreiro de Gustavo degolado

A Cinemateca Brasileira deve ser compreendida e cobrada dentro desse mar de fogo. As chamas, literalmente, já lhe consumiram as entranhas mais de uma vez – no MAM do Rio da mesma forma. Restauro e preservação nunca foi fácil para ninguém. Eis um assunto que já derrubou ministro na França. Com todo o zelo da homenagem a Dahl, seu O Bravo Guerreiro (68), finalmente recuperado, foi exibido no CineOP com um rolo a menos, o último, com a antológica cena de Pereio levando o revólver à boca ficando de fora. Portanto é preciso engrenar, de verdade, e juntos.

Há os esforços pontuais que precisam, sim, de maior articulação. Sem ir muito longe, o glauberiano Leão de Sete de Cabeças e O Homem do Corpo Fechado, de Schubert Magalhães, duas preciosidades dos anos 70, eram uma miragem para o público de hoje até bem pouco tempo atrás. Agora, com novas cópias, durarão quanto tempo? E quantos já puderam assistir? Aí joga um importante papel a circulação das obras. Mesmo sendo fundamental a superação da máxima de que um filme só sobrevive quando se exibe.

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