Sobre o post Eztetyka da Fome: a vanguarda nada mais resolverá

06/07/2012

Por Marcos Pierry

Prezado J.
Mais que oportuno regurgitar o mais célebre texto glauberiano justamente neste momento, há 48 horas do início oficial de mais uma campanha eleitoral.

Ali, nos idos de 65, o dragão traçava um diagnóstico (do cinema novo até aquele momento) e dava diretivas de como articular a criação nos termos de um movimento político que operava a partir de bandeiras locais (a fome como sintoma do problema e instrumento da revolta rumo à emancipação) e globais (o reconhecimento da condição latinoamericana como uma chave de coalizão; a tutela da sensibilidade burguesa na recepção europeia entre outros ’males’ do capitalismo) poéticas que dessem conta desse ou daquele tema também no nível da expressão segundo a vontade e inspiração do artista.

Intervir na realidade sem ser esmagado por ela, exprimir o mundo interior e o olhar do sensível do criador – endurecer buscando potência na ternura de cada um. Afinal tratava-se de um cinema de autor, para muitos a única escola estética autoconsciente na errática experiência do cinema brasileiro. Por isso, além de pontos cruciais que extravasam o partidarismo estético declarado, a exemplo da rejeição à razão colonizadora, e que vai dar na explosão febril e fantástica da ”Estética do Sonho” de anos depois, com a qual um Glauber mais que barroco tanto se volta para dentro quanto reorienta o mapa da arte revolucionária, há que se ter em conta a dimensão de autofagia da própria vanguarda sessentista.

Para além da injunção da macro-estrutura, conforme atesta o cineasta, os embates de então entre paulistas e cariocas são exemplares dessa incapacidade do discurso estético dar conta de si, o que na prática rendeu todo tipo de situação folclórica que volta e meia ainda fagulha: Ferreira Gullar, aliás autor do fundamental ’Vanguarda e Subdesenvolvimento’ (do mesmo período da Estética da Fome), estapeando-se com Augusto de Campos meses atrás nas páginas dos jornais pela paternidade da presença da poesia de Oswald de Andrade na classe média pós-golpe é o melhor exemplo disso e reedita de forma anêmica os rounds concretistas de SP versus os neoconcretistas do Rio, que vinham desde os anos JK – o recente polemismo esclerosado dessas duas lendas mostram que não aprenderam nada com os próprios postulados; Frederico Morais a bradar que o Rio é que era o lugar da vanguarda; ou mesmo o próprio cinema novo se insurgindo contra a ácida erupção fílmica da boca do lixo (onde acaba a cobrança por uma suposta alienação dos paulistas e começa um questionamento que é, no fim das costas, formal e se dá na seara da estética?).

Por isso, para evitar o falseamento de nossas consciências por nós mesmos na boca da corrida eleitoral, é por demais estratégico trazer essa rica memorabilia glauberiana encimada pelo vídeo da Lu e do Gabriel (que pretendo conferir mais detidamente antes de cotejar uma reflexão). Tema, argumentação, ilustração videográfica, propaganda política: o post e o zeitgeist dizem tudo, meu caro. A vanguarda não irá resolver mais nada e, mesmo enquanto possibilidade formal, há tempos já não passa de uma prateleira. É só trocar de vez em quando o cappuccino da Livraria Cultura por uma latinha no Berinjela ou na midialouca. E deixar a vida entrar.

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2 Respostas to “Sobre o post Eztetyka da Fome: a vanguarda nada mais resolverá”

  1. Concinha Says:

    Nostalgia? As minhas memórias individuais do que vivenciei no final dos anos de 1970 me sinalizam que a Política deva ser feita, sobretudo, por todos nós, é uma tarefa muito importante para deixar nas mãos apenas dos políticos. Antes o sentido de “juntos” era o de ensinar a quem não sabe; que instigando as massas haveria revolução.

    Fizemos somos cúmplices do nosso tempo, da contemporaneidade, e assim vemos que os espaços antes clandestinos hoje estão institucionalizados e nestes espaços agora temos a oportunidade de refletir e criar novas proposições.

    A vanguarda se reinventa, reiventamos também as vanguardas. Hoje os coletivos dirigem os processos, combinando demandas individuais e especificas de grupos. acabou o tempo do sonho total, global, agora é o tempo da pluralidade, da aceitação da diversidade de expressões coletivas e individuais.

    • PIERRY Says:

      A poesia e a política, a utopia e o pragmatismo, a nosltagia e o futuro há muito se apartaram e não se sabe mais como manejar essas dicotomias que expoem a falência do homem como um ser coletivo (produto e produtor de um meio), decretam um estado pré-primitivo porque isolam qualquer pessoa em momentos estanques da experiência simbólica.
      Não adianta a tecnologia dizer que tudo pode se a moral das nossas consciências, tão apodrecidas pelo mesmo capitalismo que um dia foi tomado como libertador, diz não a tudo, determina onde é permitido blasfemar, praticar a cobiça e invandir a subjetividade de outrem; e por outro lado prega o bom gosto do luxo solitário, democrático apenas quando se aperta um botão para uma interação a léguas dos respiros e odores de gente.
      Na urna não é assim. Na urna, na praia e no carnaval (olha que isso começa a soar anacrônico), podemos todos ter a mesma participação na hora de decidir – olhamos os mesmos corpos, tomamos a mesma cerveja, dançamos a mesma música. Sem pedalar nessa onda, não se reinventa nada; e então os conceitos, qualquer um, começam a dar no vazio, a vanguarda torna-se uma guarda vã e continuamos em estado mineral, individualistas e com a alteridade pré-colombiana – pros índios, mais uma beleza, há uma razão, para o eu se constituir do outro; pros caras-pálidas é sinônimo de falência mesmo.
      De volta à Terra, poderão ver nos próximos dias, alarmismos com as diversas facetas do jogo eleitoral: velhos comunistas ma missa do Bonfim; um PV negro, evangélico e carlista; o judeu ateu e com pose de redentor…
      Sem novidade alguma no panorama, tudo isso em curso já há algum tempo. Mas, sem sofrimento. O susto, quando bem intencionado, pode gerar uma, duas, três alegrias!


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