Gênios da publicidade ridicularizam a música clássica

27/09/2012

Por João Marcos Coelho, via Tuzé de Abreu

Não sei se vocês já viram, na TV, em horário nobre, um comercial de cerveja com um pessoal sarado beliscando churrasquinho, bebendo, cantando pagode e até arriscando passinhos trôpegos de dança. Se não viram, conto a sequência: de repente, um cara sentado no mesão toma um gole de uma latinha de cerveja sem marca – imediatamente, incha e fica como um tatu-bola gigante. E, também imediatamente, a música muda. Ele cantarolava um pagode, agora se apruma e dá uma de tenor lírico atacando “La donna è móbile”, do Rigoletto. Entra o locutor em off dizendo: tomou cerveja quadrada, dá nisso. Ele toma cerveja de outra lata, desta vez da Skol, e o pagode extrovertido retorna, junto com mulheres incrivelmente gostosas e quase peladas.
Cena da propaganda da cerveja Skol [imagem: reprodução Youtube]

Ou seja, é um tremendo sarro na ópera e na música clássica em geral. Aparentemente, é só um comercial inofensivo que pega carona na música popularesca mais rasteira pra vender o seu peixe. Só aparentemente, porém. Porque, na verdade, a atitude é preconceituosa, gratuita e deseducativa – pra ficar só nos primeiros adjetivos que me acodem. Na verdade, igualmente, e sem trocadilho algum, a propaganda nunca teve, não tem nem jamais terá compromisso algum com a verdade. Sua meta é vender, não importam os meios (vide Goebbels, um dos pioneiros e mais eficientes publicitários do século 20, modelo de tantos ganhadores de leões de ouro, prata e bronze…).


Cena da propaganda da cerveja Skol [imagem: reprodução Youtube]

Com certeza, já tem gente aí resmugando “como este cara é retrógrado, não aceita uma brincadeirinha inocente”. Epa! Brincadeira inocente nada. Existe um discurso subliminar neste tipo de propaganda que usa preferencialmente a música clássica, ou de concerto, ou de invenção, como coisa esdrúxula, quadrada, de maluco, que não vale a pena etc.etc. É um discurso perverso na essência, porque injeta preconceito no grande público com relação a esta música. Mais; afugenta de vez pessoas que, se não fossem instrumentalizadas para ridicularizar a música clássica, possivelmente até gostariam dela. Olhem só a letra traduzida de “La donna è mobile”, que o comercial ridiculariza:

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

Sempre um amável,
Gracioso rosto,
Em pranto ou em riso,
É mentiroso.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento.

É sempre um infeliz
Quem a ela se entrega,
Quem lhe confia
Incautamente o coração.

Também nunca sente-se
Feliz em cheio
Quem naquele seio
Não saboreia amor.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento!

Pra ficar no mesmo baixo nível da propaganda rasteira, parece que ela está descrevendo a Carminha e o Tufão, da novela global “Avenida Brasil”. Tá certo, Verdi pegou leve – a vilã é muito mais maldosa que a personagem na ópera, e Tufão bem mais imbecil do que seu homônimo lírico. Mas as linguagens da indústria cultural – telenovela, propaganda, música popularesca – são mesmo simplórias, caricatas. E por isso deveriam ser ridicularizadas, devolvo solenemente.


Karl Kraus (1874-1936) [foto: divulgação]

O comercial também me remeteu a um dos sujeitos mais inteligentes que o século 20 acolheu: o jornalista austríaco Karl Kraus (1874-1936), que por 37 anos, entre 1899 e 1936, foi factótum de um tablóide chamado “A Tocha”. Existem algumas traduções para o português de seus aforismos, mas no ano passado a Editora Acantillado, de Barcelona, publicou uma suculenta amostra dos seus artigos em “Die Fackel” (este é o título original do seu jornalzinho), em 550 páginas notáveis. É de lá que pincei “Viagens publicitárias ao inferno”, de novembro de 1921. Ele se horroriza com este anúncio publicado no jornalão vienense “Die Neue Freie Presse”:

“Passeios de automóvel pelos campos de batalha, organizados por Basler Nachrichten. Viagens publicitárias de 25 de setembro a 25 de outubro a preços reduzidos, de 117 francos. Sensações inesquecíveis. Particularmente recomendado como viagens de outono”.

Resumindo: o anúncio convida o leitor a visitar o campo da batalha de Verdun, entre França e Alemanha, na 1ª Guerra Mundial, no qual morreram 1,5 milhão de franceses e outro tanto de alemães, em uma batalha que durou quase um ano inteiro, de fevereiro a dezembro de 1916.

Uma coisa dessas, diz Kraus, incrementa o turismo, “mas certamente não vai elevar o nível moral da humanidade” já tão degradado. O artigo precisa ser lido na íntegra, mas cito só o final: “Só pelo fato de termos nascido”, é dolorido saber que pertencemos a uma “humanidade” cheia de canalhas, “que profana inclusive o sangue vertido” de ambos os lados.

O artigo está ficando trágico. Por isso retorno ao “inocente” comercial de cerveja para – não resisto – citar um daqueles aforismos fulminantes, que caem como luva na ilustre equipe de criação publicitária que desovou comercial tão preconceituoso e idiota: “O segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele”.

João Marcos Coelho – é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa “O que há de novo”, da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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