Faustino manda notícias pelo pai

05/10/2012

Faustino foi votar no interior e passou para o pai a incumbência de responder à entrevista coletiva sobre sua vida. Nada mais Faustino do que isso.

Pois bem, a verdade é que ele tem reaparecido.Dos painéis dos muros da cidade de décadas passadas, Faustino começa a se esgueirar pelas telas individuais destes tempos de rede.

E o criador do personagem, o artista Miguel Cordeiro, mantém um blog  bastante  visitado, ( http://www.miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br/ )numa época em que os blogs vivem meio abandoados.

Basta uma lembrança qualquer de Faustino para muitos levantarem o polegar e dar um testemunho de memória. Quem não lembra?

Curta então o criador do Faustino, um dos personagens principais da arte dos muros desta cidade da Bahia.


https://www.facebook.com/miguel.cordeiro.984

Bahia na Rede –  Por que você resolveu falar da sua criatura?

Miguel Cordeiro – Na verdade nunca deixei de falar porque continuo na ativa e trabalhando com minha arte em outros ambientes. Mas o personagem Faustino permanece na memória das pessoas e, vira e mexe,  é mencionado em várias situações em que sua presença pode ser relembrada. Esta coisa da permanência do Faustino me intriga e me deixa feliz, afinal a primeira frase que grafitei foi em 1979, há exatos trinta e três anos atrás. E isto é uma eternidade.

BR – Sempre alguém afirma, na terceira pessoa, o que faz o Faustino. Quando esta pessoa disse a verdade e quando ela mentiu descaradamente? Assim como acontece com muitos personagens famosos, são atribuídas a você muitas frases polêmicas. Foi você quem escreveu nos muros da cidade que July comia de marmita e irmã Dulce tinha conta na Suíça?

MC – Faustino quase se tornou algo de domínio popular. As pessoas criam situações para ele, inventam frases que nunca existiram. É sinal de que a alma do personagem foi diagnosticada por todos. Atribuem a mim determinados grafites que não são de minha autoria, a exemplo destes que você citou. No entanto, isso é compreensível porque eu fui o único pichador daquela primeira geração do final da década de 1970 que continuou atacando os muros. A maioria parou em 1980/81, e eu continuei na ativa com o Faustino até 1986.

Cláudio Moreira – Em qual dos shoppings da cidade Faustino vai com a família?

MC –  Faustino frequenta o Shopping Salvador, mas o seu grande sonho de consumo é pisar os pés no “Shopping da Ilha”. Isso depois da conclusão da ponte Salvador-Itaparica, prometida pelo governo e que será inaugurada com todas as pompas por Lula. E, sem dúvida, Faustino estará presente nesta efeméride. Imagine só a cena: Faustino sai correndo atrás do carro de Lula por todo percurso da ponte, gritando “olê olê olê olá Lulá Lulá”, e segurando na mão, é claro, a bandeirinha do Brasil.

Nilson Galvão –  Faustino já encomendou o novo iphone 5?

MC –  Faustino tem telefone Xing Ling Iphone 8 e guarda o mesmo na pochete de couro plástico, devidamente dependurada na cintura.

Bernardo Guimarães –  Pra onde Faustino viaja nas férias?

Cyntia Campos –  Quais são seus planos de viagem para as próximas férias?

MC –  Em 1980 pichei uma frase que foi bastante comentada: “Faustino passa as férias em Irará”. Na época eu até soube que a câmara municipal daquela cidade queria me conceder o título de cidadão iraraense. De qualquer forma, eu não iria aceitar. Nestes casos de homenagens eu concordo plenamente com o que diz o ator Paulo César Pereio. Só aceito prêmios em dinheiro. E eu penso que medalhas e taças sempre ficam encardidas ou enferrujam, e são horrorosas como peças de decoração.

BR –  No tempo de Faustino praia longe era Stella Maris. Qual praia ele frequenta hoje? Ainda tem a casa da Ilha? Ou como já anda dizendo Ari Coelho, o negócio dele hoje é Ilha de Caras?

MC –  É bem verdade que nos anos 1970, Faustino tinha um terreno na ilha. Porém, em meados da década de 1990, ele vendeu a área para adquirir um village no litoral norte. É para lá que ele vai nos finais de semana. Convida os amigos da repartição onde ele trabalha depois que passou num concurso público como analista técnico do INSS. Porém, caso fosse convidado para visitar a Ilha de Caras, certamente Faustino iria mijar na piscina da mansão, ou largar um “barro” nas pedras da praia.

Marcus Gusmão –  Que tipo de combinação sua tia usava para dormir?

MC -A pichação “Faustino mora com a tia” não tinha nenhum tipo de conotação sexual. Não significava que ele usufruía intimidades ou que queria fazer ousadia com a sua parenta. A tia de Faustino era crente fervorosa e jamais saía dos seus aposentos com roupa de dormir, e menos ainda trajes sumários tipo camisola ou lingerie.

BR –  Daniela, Ivete ou Claudia Leite? Barra ou Ondina ou Pelourinho no Carnaval?

Mônica Bichara –  Curte Pablo?

MC – Faustino é axezeiro, curte arrocha, pagode, Maria Gadu e toda essa merda musical que os intelectuais companheiros agora inventaram de elogiar. Porque se Londres e Nova York são os paraísos dos roqueiros, então Candeias é o paraíso musical de Faustino. E quando se fala em carnaval, Faustino está em todas, mas ele é presa fácil para os ladrões que se aproveitam da folia momesca para aplicar seus golpes fazendo o arrastão. Até inventaram uma pichação para esta situação: “Faustino foi roubado na passagem do Chiclete”.

João Paulo Costa – Faustino tem algum amigo ladrão de banco?

MC –  Tinha um roqueiro muito gente boa da época do Camisa de Vênus que ganhou a fama de ser ladrão de banco. Mas era culhuda da galera. Pura injustiça que foi mal interpretada. O que aconteceu é que o cara levou pra casa um banco do jardim do Campo Grande, e ficou com a pecha de que ele teria sido assaltante de banco de dinheiro.

Heliana Frazão –  Você se lembra da Vibemsa? Sabe o que aconteceu com a empresa?

MC – Quem não lembra da Vibemsa, da Viação Duran e tantas outras empresas de ônibus que rodavam pela cidade? Diversas foram as vezes, no horário do rush, que flagraram Faustino fazendo terra no ônibus da Joevanza que ia pro Jardim Cruzeiro.

BR –  Bahia ou Vitória?

MC – Nem um nem outro. Faustino torce pelo Leônico. E até hoje tem guardado um autógrafo de João Guimarães, que foi cartola, presidente, diretor de futebol, técnico, preparador físico e motorista do Moleque Travesso, apelido do Leônico. Aliás, o uniforme do Leônico era lindo demais, na cor grená com escudo branco bordado na altura do peito esquerdo. Atualmente os Faustinos infestam a cidade vestidos nestas camisas feionas do Bahia e do Vitória, de tecido sintético e repletas de logotipos horríveis dos seus respectivos patrocinadores.

Celso de Carvalho –  Ainda tem o álbum do Tio Maneco. Conseguiu completar alguma página?

MC: Faustino não colecionou figurinhas do Tio Maneco. Faustino completou o álbum das balas Xibiu.

Toni Vasconcelos – Em quem Faustino vota para prefeito de Salvador? Ou vota nulo?

MC –  Tinha um grupo genial de grafiteiros dos anos 1970, que se chamava JRJ. Eles picharam uma frase lendária que exprime com precisão o espírito das massas faistinadas deste Brasil eternamente despolitizado e governado por picaretas, dos pilhadores da colonização portuguesa aos mensaleiros de agora. O referido grafite dizia o seguinte: “Zé Povinho apoia o governo”.

Clodoaldo Lobo –  Faustino, você usava samba-canção rosa ou azul?

MC –  Faustino não foi da época da cueca samba-canção. Quando deixou de usar fraldas, ele já passou a vestir cueca Zorba, que eram mais confortáveis e tinham a vantagem de deixar os “documentos” mais visíveis e volumosos, para a alegria das garotas.

Ana Manuela Costta –  Quando a Aspeb deixou de existir, onde Faustino passou a guardar dinheiro?

MC –  É verdade. Faustino tinha caderneta de poupança da abelhinha da Aspeb. A Aspeb faliu e Faustino se lenhou também. Depois ele abriu uma poupança no Banco Econômico, e com o governo de Sarney os rendimentos ficaram bastante vantajosos por causa da inflação monstro da época. Mas aí veio Collor e surrupiou a grana de todo mundo. Veio o plano real e a poupança perdeu sentido. O Econômico também acabou. Então, pra que poupança? E pra complicar ainda mais, Sarney e Collor agora são aliados dos seus velhos inimigos, e a cada manhã eu só penso em pedir asilo ao Paraguai.

Ari Coelho –  Faustino foi ao velório da Hebe?

MC –  Não, porque ele detesta este negócio de celebrar a morte. Faustino adora a vida. Portanto, Faustino vai pro batizado da filha de Joelma do Calypso.

Ricardo Franco –  Faustino já foi grampeado?

MC –  Em 1978/79, toda aquela geração inicial do grafite de Salvador, da qual eu fazia parte, estava produzindo algo semelhante ao que ocorria nas metrópoles mundiais em termos de arte urbana, ou “street art”, para usar um termo da moda. Juntos, e sem saber, o Mancha, eu, Madame Min, Zezim, Ho, Dr. Pênis, JRJ, ML, Jaciara, Baldeação, Pan e outros atuamos como pioneiros desta coisa do grafite que, hoje, infelizmente, se tornou um troço totalmente careta depois que foi dominado e domesticado por curadores e produtores culturais associados a governos, instituições oficiais e ONGs. Naqueles tempos vivíamos sob a égide do regime militar  e, às vezes,  recebíamos avisos e recados de que estávamos sendo observados pelos órgãos de informação. É claro que a gente sentia certo receio, mas em todo país já se respirava um clima mais ameno, de que a plenitude das liberdades democráticas estava a caminho e que este processo era irreversível.

BR –  Você pretende voltar aos muros? Criar um blog ou uma página no facebook?

MC – Para um grafiteiro de alma os muros sempre são convidativos. E embora eu tenha parado com o Faustino em 1986, continuo vez ou outra realizando grafites aqui e ali. Trabalho diariamente com minha arte, tenho uma banda de rock´n´roll chamada Koyotes onde canto nossas composições e toco guitarra. Também sou o co-autor da canção Simca Chambord, gravada pelo Camisa de Vênus, e considerada um clássico do rock brasileiro. Mas é lógico que os grafites do Faustino marcaram uma geração, e as pessoas exigem que eu faça o seu resgate. Em relação à internet, no ano de 2006 criei o meu próprio blog – Miguel Cordeiro Arquivos (http://www.miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br/) – para expor meus trabalhos visuais – pinturas, desenhos, grafites, e também os meus escritos. E a resposta me surpreendeu desde o início e continua me surpreendendo porque a recepção tem sido ótima com grande número de acessos e visitas. Atualmente, o blog Miguel Cordeiro Arquivos tem uma média de 150 a 200 visitas individuais diárias. O que é uma marca memorável para um espaço virtual independente de um artista underground. Também tenho um perfil no Facebook onde faço postagens diárias com minhas pinturas, desenhos e grafites, e a resposta também tem sido excelente com gente de todo o mundo curtindo e comentando minha produção artística.

2 Respostas to “Faustino manda notícias pelo pai”

  1. mary Says:

    ótima entrevista.


  2. ótimo texto, ótimas respostas


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