Encontro de Reis da Chapada, Boninal, 2000

13/10/2012

Josias Pires

O “Encontro de Reis da Chapada / Reisado Zé de Vale” foi o décimo quinto programa da série “Bahia Singular e Plural”. Na Chapada filmamos o Encontro de Reis realizado em Boninal, em janeiro de 2000, que reuniu cantadores de Reis dos municípios de Boninal, Piatã, Seabra, Mucugê, Andaraí, Palmeiras, Utinga e Rio de Contas. O Reisado Zé de Vale foi gravado na cidade de Saubara, no Recôncavo e no povoado Gameleira, na Ilha de Itaparica.
Foi o quarto programa da série “Bahia Singular e Plural” sobre festas de Reis – depois de Festas e Folias de Reis, Folias de Negros, Burrinhas e Bumba-meu-boi. Aa festas de Reis, ao lado do Carnaval e do São João, estão disseminadas em todas as regiões da Bahia. Integram o calendário de festas de praticamente todos os municípios do estado. Além de ser ato de fé e de alegria, as cantorias de Reis desempenham importante papel de coesão social, de afirmação das identidades locais e de fortalecimento do grupos familiares e comunitários.

A maestria em fazer diferentes tipos de samba tornam os reseiros os mesmos festeiros de grupos das épocas juninas e carnavalescas. Expressões religiosas que são, as festas de Reis são feitas por sujeitos, na Bahia, que professam diferentes religoões. Mãe Hilda, a Mãe Preta do Curuzu me confessou ter participado de ternos de pastoras na sua adolescência. Os reiseiros, por isto mesmo, são envolvidos em diferentes expressões musicais. Daí terem sido reiseiros dos ranchos de Reis levados para o Rio de Janeiro pelas tias baianas na segunda metade do século XIX que seriam os embriões das escolas de samba do carnaval carioca.

Na Bahia, a vitalidade das festas de Reis é reafirmada a cada ano, entre o dia de Natal e seis de janeiro, quando cantadores e sambadores revivem o mito dos Reis Magos, sábios do Oriente que foram guiados por uma estrela até um presépio de Belém, onde nasceu o Menino-Deus. Além dos Reis Magos, encontramos reiseiros fazendo diferentes tipos de samba em folias e ternos de São Sebastião, do Divino Espírito Santo, São Benedito – este santo negro é padroeiro, inclusive, de marujadas como as de Prado e Jacobina.

Os reiseiros são peregrinos festivos, que saem cantando e tocando violões, violas, tambores, flautas em visitas às moradias nas fazendas, vilas e cidades, repetindo um percurso tradicional todos os anos. Em cada casa, eles cantam marchas para saudar o dono da casa e o Deus-Menino; e, em seguida, cantam chulas, batuques e sambas coreografados de modos variados, no interior da residência, diante do presépio.

Dois grupos de Reis, também chamados Ternos de Reis ou Folias de Reis, quando estão percorrendo os seus caminhos tradicionais, jamais cantam juntos num mesmo lugar. Isto só acontece em eventos especialmente preparados para este fim, como foi o caso do Encontro de Reis da Chapada, coordenado pela fotógrafa Ieda Marques, natural de Boninal (http://www.iedamarques.com/), Onildo Reis e muitos colaboradores.

O Encontro revelou uma síntese diversa da manifestação singular e plural da Bahia: cada grupo de Reis tem o seu próprio repertório musical, suas danças e seus personagens. Há os ternos de pastoras, integrado sobretudo por mulheres, que usam indumentária e adereços coloridos; há as folias formadas exclusivamente por homens, que são os próprios músicos e cantadores; há os ternos de bumba, pequenas orquestras instrumentais formadas por zabumba, caixas, gaitas (flautas de taquara ou feitas de tubos de pvc), pandeiro e triângulo; há os reis de sanfona; há também os Reis de Boi, onde aparece o boi-bumbá e outros bichos.

Durante o evento, a TV Educativa exibiu em praça pública dois documentários sobre festas de Reis – Ternos e Folias e Folias de Negros – ambos da série Bahia Singular e Plural. Depois da exibição, os grupos de Reis da Chapada que participaram dos documentários da TVE receberam fitas dos programas. O impacto de verem a si mesmos cantando e dançando na televisão, deixou os reiseiros emocionados.

“Pra mim tá parecendo um sonho, parece que tô dormindo. A hora que eu acordar, não sei, a emoção; ainda mais de receber essa fita aqui, no dia que foi gravado em casa, a gente na maior simplicidade e agora no meio dessa emoção de gente aqui, tô surpreso, viu, não pensava deu chegar a essa altura”, disse o reiseiro José Braulino de Assunção (Zé Preto), do terno de bumba da zona rural do município de Piatã.

REISADO ZÉ DE VALE – Esta é uma das mais curiosas e surpreendentes manifestações da cultura popular do Nordeste. Ao contrários dos reisados tradicionais, nos quais o Menino-Deus e os Reis Magos são os personagens principais, no Reisado Zé de Vale o personagem principal é um bandido. Estamos diante de um folguedo que o professor Nélson de Araújo classificou como sendo uma espécie de “reisado dramático”, ligado à tradição dos romances de bandoleiros audaciosos, como o Cabeleira, famoso cangaceiro pernambucano do século dezoito, imortalizado pelo escritor Franklin Távora.

Em Saubara, terra por excelência do samba de roda, o Zé de Vale perdeu as características de um folguedo de festas de Reis e foi transformado num samba teatralizado. A apresentação foi gravada pela TV Educativa no dia da festa do santo padroeiro local, São Domingos, no mês de agosto. A brincadeira começa com uma animada roda de samba. Daí a instantes, um sujeito esfarrapado, o Zé do Vale, com “pinta” de malandro, tenta participar da roda de samba, mas é impedido pelos sambadores.

Depois de algumas tentativas frustradas, ele penetra na roda de samba, mas os atabaques, caixas e pandeiros param de tocar. Dois ou três “soldados” retiram o sujeito da roda, avisando-o de que ele não deve entrar naquele samba, “samba de gente civilizada”. Esse jogo é repetido algumas vezes, até que num dado momento, Zé do Vale entra na roda de maneira surpreendente, samba à gosto e começa a dar pernadas, porradas e derruba vários dos sambadores. Cria-se um clima de confusão, que só será interrompido quando os soldados prendem o Zé do Vale, que é imediatamente amarrado e recebe uma série de cacetadas.

Com a prisão de Zé de Vale, tem início a apresentação da segunda parte do drama, do espetáculo (toda cantada). Entram em cena, a mãe e a irmã do bandido e a figura do presidente (segundo os folcloristas este personagem remete ao presidente de Provìncia, autoridade máxima dos estados durante boa parte do século XIX). A mãe de Zé de Vale é um senhora rica que tenta, de diversos modos, subornar o presidente para soltar o valentão. O presidente não aceita as sucessivas ofertas da mãe do bandido, sempre recebedo a negativa do presidente. Ao final, esgotadas as possibilidades Zé do Vale ganha a liberdade através da “bandeira do Reis” – a religião ancorando e teatralizando este conflito único entre as danças dramáticas brasileiras.

Em Gameleira, o espetáculo continua associado às festas de Reis. Porém já não se repete o antigo costume de cantar de casa em casa. Hoje as apresentações são feitas nas ruas e praças do povoado. O personagem Zé de Vale, em Gameleira, é um adolescente, filho também de uma senhora rica. O espetáculo começa com ele já preso, sob a acusação de ter roubado cana na fazenda do presidente. Assim como em Saubara, a mãe de Zé do Vale tenta subornar o presidente, oferecendo dinheiro, um cavalo, um navio e até a sua criada de estimação – tudo isso recusado pelo presidente. Zé de Vale é solto pela “bandeira do Reis”. Os participantes do Zé de Vale de Gameleira fazem questão de ressaltar a ‘moral da história’: “essas meninadas de hoje só querem é negócio de violência, então a gente quer dá um exemplo pra ele ver o que é o filho desobediente ao pai e mãe e vê que termina na mão da polícia”.

Uma resposta to “Encontro de Reis da Chapada, Boninal, 2000”

  1. Nilson Says:

    Adoro as festas de reis. Que elas sobrevivam!


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