De internautas a peixes de aquários virtuais?

16/10/2012

Por Zeca Peixoto*

Quando o porta-voz do WikiLeaks, Julian Assange, declarou que o Google sabia mais sobre nós do que nossas próprias mães, o ciberativista australiano lançava um alerta para o processo em curso de garroteamento da Internet pelas novas corporações da mídia. Estaríamos cada vez mais navegando em aquários-fazendas virtuais sem nos dar conta dessa condição de confinamento?

Em O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você, o norte-americano Eli Pariser, presidente do conselho diretor do portal MoveOn.org e cofundador da Avaaz.org, disseca o enredo. Personalizar. Essa é a palavra-chave para entender como o Google, Facebook, Yahoo, YouTube e outros agem na web para utilizar dados de milhões de pessoas com o fito que foge ao ideário inicial da web.

Adotada por libertários ainda ressaquiados pela maré dos movimentos da contracultura, Pariser aponta uma Internet 3.0 que hoje caminha para colocar seus usuários como presas fáceis das bolhas de filtro. “(…) Quando deixamos por conta própria, os filtros de personalização servem como uma espécie de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com as nossas próprias ideias, amplificando nosso desejo por coisas conhecidas e nos deixando alheios aos perigos ocultos no obscuro território do desconhecido”, afirma.

Buscar a relevância num oceano de milhões de informações disponíveis levou os programadores a trabalharem algoritmos capazes de empurrar os usuários para lugares-comuns amoldados aos seus perfis e predileções. Os sinais de comportamento, inclinação e preferências resultam em milhões de dados que, após filtrados e analisados, são transformados em algoritmos que direcionam os internautas para nichos de supostas identificações sociais, culturais e políticas.

Uma pesquisa no Google sobre o aborto trará um elenco de resultados para alguém que se posta filosófica e ideologicamente contra a prática e outro para um militante favorável à causa. Por quê? Porque o mais importante não é ofertar informações capazes de apresentar o problema num leque de visões e opiniões que mostrem os contraditórios do assunto ou tema buscado. Isso é secundário. O objetivo é manter guetos de afins para facilitar a publicidade direcionada.

“A empresa que tiver maior quantidade de informações e souber usá-las melhor ganhará os dólares da publicidade”. Segundo o Wall Street Journal, os cinquenta sites mais visitados da Internet, sejam eles a CNN, o Yahoo ou o MSN, instalam cada um, em média, 64 cookies repletos de dados e beacons de rastreamento pessoal.

“Se buscarmos uma palavra como ‘depressão’ no Dictionary.com, o site irá instalar 223 cookies e beacons de rastreamento em nosso computador, para que outros sites possam nos apresentar anúncios de antidepressivos”, alerta Pariser.

O comportamento das pessoas na rede é a mercadoria. Estratégia que não atinge apenas a publicidade, mas também o jornalismo como efeito-catraca. Notícias que trazem assuntos recentes, pouco aprofundados, com ênfase nos escândalos virais ganham importância. “Os repórteres já não procuram mais furos – eles apenas botam lenha na fogueira das matérias que ganham mais cliques”, alfineta o ativista.

A economia da atenção tem imposto à web uma espécie de mais do mesmo a milhões de usuários. A dica despretensiosa, tipo se você gosta disso gostará também daquilo; ou as sugestões de amizade de perfis próximos às suas tribos e grupos de referência, operam como poderosos filtros para manter focos de atenção pontuais.

Dinâmica que dilui e até mesmo elimina a serindipidade, ou a possibilidade de achar o que não procuramos, inibindo a criatividade que possa resultar em descobertas que fujam ao que as “bolhas” possam dispor. Ameaça à promoção da diversidade de ideias, culturas e o sadio contato com o inusitado.

Na sua análise, o autor apresenta as diferenças entre o Twitter e o Facebook. A despeito dos aspectos semelhantes das duas redes sociais, Pariser classifica as regras do Facebook como “incrivelmente turvas e que parecem mudar quase todo dia”.

Na opinião do ativista, a rede criada por Mark Zuckerberg atua conforme suas bolhas de filtro e, muitas vezes, não respeita a publicação de postagens dos seus participantes, “pois diferentes tipos de conteúdos têm diferentes chances de ser mostrados”. Em relação ao Twitter, Pariser entende essa rede como bastante transparente e com poucas regras rigorosamente respeitadas pela empresa, não enganando os usuários.

O Filtro Invisível não é apenas um libelo solto contra a tentativa de domínio aético de empresas na Internet por intermédio de panópticos de monitoramento social. O trabalho é embasado em razoável base teórica que reúne opiniões e citações de psicólogos, pedagogos, cientistas sociais e estudiosos do comportamento humano de diversas áreas do conhecimento. O livro serve como importante alerta do porvir sobre os efeitos da web no futuro das relações humanas.

* Jornalista e mestre em História Social

Resenha publicada no blog http://www.textosaovento.blogspot.com

Serviço:
Eli Pariser
O Filtro Invisível, o que a Internet está escondendo de você
Jorge Zahar Editor, 2012, Rio de Janeiro
Tradução – Diego Alfaro

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