18/10/2012

Por Josias Pires
Cantos de trabalho são canções que acompanham as atividades produtivas manuais agrícolas ou urbanas, coletivas ou individuais. Em todo o mundo são numerosos os cantos de trabalho: as canções de fiar, canções de quebrar pedra, as canções de plantar e colher, as canções de remar, chamar o gado, apregoar, etc. São cantos que exprimem a profunda ligação entre a arte e a vida.

Embalados pela música, as pessoas desempenham com alegria as lidas diárias, sentem diminuir o peso do esforço físico e aumentar a produtividade, pois os cantos podem acelerar o trabalho, dando-lhe um caráter rítmico e hipnótico. Cada movimento das mãos ou dos pés do trabalhador, cada golpe dado na madeira ou na pedra, obedecem ao ritmo de um recitativo, repetido por todos, em uníssono. A música funciona como articuladora dos movimentos dos grupos que executam as tarefas coletivas. Este é um processo muito próximo da magia — em alguns casos, essas canções tem raízes em fórmulas encantatórias.

A Bahia é um grande repositório de cantos de trabalho. Eles são encontrados principalmente nos mutirões, também chamados de “adjuntos” ou batalhões — são modos de trabalho coletivo e gratuito em benefício de uma atividade agrícola, construção de casas, abertura de estradas, etc. Estes mutirões são universalmente conhecidos e os indígenas brasileiros o empregavam antes da chegada aqui dos europeus.

No documentário “Cantos de Trabalho” estão registrados músicas dos batalhões para a roçada, plantio e colheita de cereais, conhecidas como “bois-de-roça”, além das cantorias de chulas e batuques. Há um vasto repertório de “bois-de-roça” e os lavradores costumam improvisar novos versos durante as jornadas de trabalho. Ao lado dos “bois-de-roça” outro gênero musical que aparece no documentário é constituído pelas “batas” de feijão e de milho — uma música marcadamente rítmica, cantada com o uso de porretes de madeira para descascar o feijão e descaroçar o milho.

Foram documentados também os cantos para colher e pilar café; os cantos usados nas casas de farinha; as cantigas de roda cantadas por lavadeiras e, por fim, foram registrados os aboios livres e os aboios cantados em versos. Aboios livres são os cantos solitários dos vaqueiros para tocar as boiadas. Com este canto monótono, marcado exclusivamente por vogais, o vaqueiro entabula uma espécie de conversação com os animais. A melodia do aboio tradicional deu origem a um novo gênero, o aboio cantado em versos; e a uma nova profissão, a do poeta aboiador, que tem inclusive gravados discos e feito sucesso nas vaquejadas pelo interior do Nordeste.

Foram gravados para este documentário cantos de trabalho nos municípios de Valença, Utinga, Morro do Chapéu, Araci, Santa Bárbara, Serrinha, Conceição do Coité, Amargosa e Uauá.

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