Venezuela: Impressões de viagem

31/10/2012

Fogo sobre Marmara – Parte 1

Por Josias Pires

O ambiente democrático na Venezuela é pulsante. Esta foi a  impressão que tive durante o breve momento que vivi naquele país participando do V Festival de Cine Latinoamericano y Caribeño Margarita 2012, realizado na cidade de Porlamar, na Ilha de Margarita, entre os dias 25 de outubro e 01 de novembro.

Conheci jovens cineastas venezuelanos entusiasmados, que estão  criando obras vigorosas e sensíveis, jovens politizados, estudados e com alta capacidade de compreensão dos contextos locais, regionais e internacionais.

Estar entre cineastas latino-americanos na Venezuela debatendo questões vitais da cultura em plena crise e reestruturação (?) do capitalismo favorece o entendimento acerca da democracia venezuelana, onde o presidente eleito é atacado pela grande mídia e, mesmo assim, em nome de um projeto socialista, mobiliza intensamente o país que se engaja no desejo de afirmar o processo de transformação de valores.

Prova inconteste do vigor da democracia venezuelana – e da tolerância típica dos latino-americanos, acentua um dos jovens cineastas daquele país que conheci – é que na última eleição presidencial concorreu no pleito um dos líderes da tentativa de golpe, em 1992, contra o presidente eleito. Foi o chamado “golpe da mídia” pois os seus opositores manipularam na televisão imagens de manifestações públicas, como ficou provado no documentário “A revolução não será televisionada” https://www.youtube.com/watch?v=MTui69j4XvQ.

O conflito dos interesses populares e os interesses dos barões da mídia estão muito definidos na Venezuela e na Argentina, ao contrário do que ocorre no Brasil. Aqui o governo continua financiamento generosamente as grandes redes de tevês, que difundem largamente imaginários consumistas, funcionando como os maiores estimuladores de valores e ideologia capitalista.

Pesquisadores, especialistas e autoridades presentes no Fórum refletiram sobre a centralidade do audiovisual na formação das subjetividades contemporâneas. Surgiram propostas acerca da formação de público, uma questão estratégica fundamental, que deve começar com o público infantil. Mais do que debates qualificados, o festival abrigou um mostra de filme realizados por crianças (http://www.youtube.com/watch?v=xIXUBk5ATiU)  e a mostra de filmes de televisões comunitárias.

A mostra “Mis primeiros Pies-Cesitos” reuniu 24 filmes realizados por 24 coletivos de crianças de escolas do estado de todos os estados da República Bolivariana da Venezuela. No próximo o ano “Mis Primeiros Pies-Cesitos” será uma mostra internacional, iniciativa que estimula o surgimento de um novíssimo cinema latino americano.

No contexto de construção da democracia naquele país e na América Latina,  o Festival de Margarita assume papel de vanguarda, promovendo a articulação política do cinema latino-americano e caribenho, na medida em que consegue reunir um Fórum de realizadores e articuladores da Venezuela e da Argentina, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Guatemala, Peru, Uruguai que se debruçam sobre os caminhos e encruzilhadas do  cinema e da cultura da América Latina e Caribe.

Documento aprovado pelo Fórum em defesa da integração latino-americana será entregue aos governantes dos países da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Os governos dos países latino-americanos devem ter em conta que a integração passa, necessariamente e mais fortemente, pela cultura.

Questões chaves (sem trocadilhos) estiveram na pauta do Festival. O presidente do evento, Victor Luckert, defende a formação de um “mercado comum do audiovisual” que seria a consolidação de um território audiovisual na região, com uma legislação própria que permita produzir, distribuir e exibir projetos audiovisuais para televisão, salas de cinema e internet de todos os países associados.

A Venezuela está enfrentando com disposição o desafio de fazer a transição da tevê analógica para a digital. As emissoras de televisão do país deverão estar totalmente digitalizadas – produção, edição, emissão – até o final de 2013, conforme foi anunciado durante o evento. Foi auspicioso saber, igualmente, que há sete anos está em vigor na Venezuela uma lei que reserva horários semanais na televisão para a produção independente de cinema e tevê, fato que propiciou a formação de muitas pequenas empresas no setor, que competem e cooperam intensamente no mercado local.

Como enfrentar de modo adequado a digitalização do cinema hegemônico norte-americano, cujo controle sobre a exibição nas salas de cinema tenderá a ser ainda maior?

Acabou o tempo de circulação de películas cinematográficas. Agora, de poucos pontos do planeta, os emissores mandam o mesmo filme para milhares de salas, no mesmo dia e horário. Como lograr a exibição de filmes independentes em salas de cinema associadas com a distribuição norte-americana neste contexto? Os distribuidores programas os exibidores e fornecem uma senha de acesso ao equipamento de exibição, cuja chave só funciona no dia e hora previamente designados.  Estamos diante da contra ofensiva capitalista quanto ao uso do digital, ou seja, no campo da exibição de filmes em salas de cinema, os capitalistas estão aprofundando o controle da emissão, o monopólio da fala. É contra este estado de coisas que se levantam os cineastas reunidos pelo Fórum de Margarita.

E mais: como superar e vencer a capacidade de manipulação da ideologia e da ética hegemônicas, justificadoras do capitalismo consumista e do poder autoritário, exclusivista, racista? Como tornar a população vacinada contra o abuso de políticos obcecados pelo poder, capazes de usar a televisão para prometer o paraíso na terra e enganar os incautos?

O cineasta baiano Glauber Rocha lembrava, insistentemente, que só há revolução política se houver revolução estética, a forma tem que ser revolucionária. A busca pela Educação crítica da população. Na Venezuela sente-se no ar e percebemos nas atitudes das pessoas comuns o engajamento com as transformações, ainda que difíceis e demoradas.

O Festival de Margarita é o maior da Venezuela. Neste ano foram exibidos 73 filmes de curta, média e longa metragem de ficção, documentário e animação. O longa metragem documentário “Cuíca de Santo Amaro”, que dirigi com Joel de Almeida – e mais dois filmes brasileiros (“Cartas para Angola”, de Coraci Ruiz e Júlio Matos; e “El Liberdade, de Cintia Langie e Rafael Andreazza) integrou a mostra ”Ópera Prima Largometraje Documental” ao lado de outros nove filmes da Argentina, Equador, México, Uruguai e Venezuela.

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