Cachoeira Doc: Anotações sobre o filme Doméstica

06/12/2012

domestica

Por Josias Pires

Como dizem os especialistas, o filme Doméstica, de Gabriel Mascaro,  realiza-se a partir de um mecanismo bolado pelo diretor, que consiste em contratar  sete adolescentes dispostos e capazes de filmar, em suas próprias residências, a intimidade de empregadas domésticas. O mecanismo é, de fato, bastante engenhoso na medida em que sendo as imagens filmadas pelos garotos e garotas filhos dos patrões, a edição capta esta relação peculiar flagrada na solidão  das cozinhas e salas. Um filme revelador: estamos diante de  cenas desconcertantes, intensas em significados diversos, vividas por personagens maravilhosas. Não resta dúvidas de que o mecanismo foi largamente beneficiado pela força das personagens, que são capazes de, no confronto, com a “equipe de filmagem” produzir revelações/reiterações sobre a história e a natureza da vida privada no Brasil. As cenas são feitas em residências nas cidade de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Manaus e Salvador.

Confrontado com o valor etnográfico e sociológico do filme, durante a exibição, por um momento na sala de projeção lembrei-me do filme Nanook do Norte.   Personagem único versus múltiplos. Quais os limites desses mecanismos? Flaherty convive anos com Nanook e fala sobre Nanook, sua vida, sua cultura. As empregadas domésticas são filmadas por pessoas que conviveram anos com elas e, graças ao som direto, podemos saber diretamente sobre as suas relações. Aí reside a riqueza do filme, a convivência, o afeto, de fato, fazem vir à tona outras camadas  da nossa vida social. As perguntas que não são feitas ficam, de alguma maneira,  insinuadas.

História total narrada pelo diretor versus  fragmentos intensos de muitas histórias … Crônica de um verão, personagens que expõem suas intimidades diante das câmaras, signo pós-moderno por excelência. Cinema de atrações. Desde sempre. A crise das formas e dos formatos, o conflito entre o filme sobre a carta ou sobre o sistema de correios e telégrafos de que falava o cineasta Alberto Cavalcanti. Doméstica. Fazer filmes com o material produzido por equipes não convencionais, em certa medida, relaciona-se com o método do cinema de arquivo e dos filmes de montagem.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: