A sereia engessou

12/01/2013

canto-da-sereia

Por Raul Moreira, jornalista e cineasta, A Tarde
Quando lançou a sua primeira ficção literária, O Canto da Sereia, em 2002, resultado de suas incursões a Salvador em verões escaldantes, o jornalista e escritor pop Nelson Motta, entre outros atributos, deixou a entender que a terra dos orixás e todos os santos experimentava um surto modernizante, mas mantinha-se fiel ao seu espírito petrificado, um misto de anarquia e malemolência.

Passados pouco mais de 10 anos, eis que a microssérie adaptada do livro homônimo de Nelson Motta ganhou o horário noturno da Rede Globo e, até amanhã, salvo apagões de última hora, vai alimentar ou, quem sabe, constranger o imaginário dos telespectadores, principalmente os locais. E caso o faça, certamente não será pelo bom acabamento da obra, diga-sedepassagem, mas tão somente pelo fato de que nós, nativos, normalmente somos mais susceptíveis diante do suposto espelho.

Mas qual espelho? Melhor: quais espelhos? Isso porque a microssérie, queira ou não, acaba refletindo o macrocosmo da atual Cidade da Bahia, opulenta e ao mesmo tempo miserável, com suas distinções de classes, coma“instituição”denominada de povo ainda flutuando no lugar de sempre, enquanto os emergentes, acertadamente, retratados comorealmente são, cafonas, deslumbrados, arrogantes.

Forçando a barra, tudo isso, naturalmente, dá a O Canto da Sereia um aporte contemporâneo, capaz de nos transportar a um mundo marcado por uma cultura musical que se tornou umabênção e ao mesmo tempo uma maldição. Porque a saga de Sereia, a diva assassinada na boa juventude em plena terça-feira gorda de carnaval,na mítica Praça Castro Alves, nos releva, sem purismos, o quanto vale e a natureza em torno da qual gira tal universo, comsuas intrigas, servilismos, lutas de poder, perversões e o fim da inocência.

Axé music –  Compraz, claro, a percepção de que a trajetória de Sereia, ainda que ficcional, talvez seja o retrato das “deusas” reais do axé music, as moças que cantavam embares barulhentoseque, por talento, sorte e outros fatores, conquistaram lugar cativo nos palcos e nos trios elétricos. Mais: a microssérie O Canto da Sereia, a partir de sua estrutura policialesca noir, a qual trafega e releva os desdobramentos de um crime impensável em Salvador, sugere o quanto a instituição axé music tornou-se senhora deste mundo. Ainda que a orientação ideológica da construção dramatúrgica não se dê à crítica social e de costumes, ficam implícitos a força e o poder de tal instituição, predominantemente emanada do feminino, que se expande do privado ao público, sem medidas.

Sim, a microssérie, ainda que construída em torno do suspense de quem matou a diva e recheada de erotismo bem iluminado, acaba sendo um documento a partir do qual muitos podem se debruçar para tentar enxergar e entender em cima de que bases ancora-se o universo da axé music, uma entidade repleta de tentáculos e que os renova vez por outra, revelando uma Sereia, por exemplo, na mesma pegada das divas reais.

Gesso –  O problema é que, ao seguir quase fielmente o livro de Motta, sem tocar em assuntos polêmicos, como a separação dos cordeiros e do folião pipoca, questões às quais o autor fez uma alusão superficial, a Sereia global acabou engessada. Isso porqueocariocaMotta pode ser um bom escrevinhador de um tipo de literatura de inclinação pop e de degustação fácil, mas nunca foi nem provavelmente será um que construa os seus personagens com um psicologismo mais apurado, até por tratar-se da sua primeira experiência ficcional.

Assim, repetindo os personagens dos livros, inclusive os “heróis”’ vividos por Augustão e Sereia, respectivamente Marcos Palmeira e Ísis Valverde, torna- se desconfortável a forma através da qual eles são apresentados, em cima de clichês de um maniqueísmo de boteco, um jogo de suspense que no final rouba certo encanto da obra. O resultado é que, adornada de máquinas digitais e de espumantes, a trama noir tendo de pano de fundo os velhos casarões e ruas da Cidade da Bahia, com toques de misticismo e erotismo bissexual, dilui-se, evapora-se, deixando nu o personagem central, que não consegue arrancar um riso mínimo, como acontece no livro.

Exceção dos “dotes” de Ísis Valverde, que seria reprovada no teste para vocalista de qualquer bloco de rua de Salvador, em relação à composição dos personagens, com todos os perigos do caricatural, principalmente a partir do sotaque, não há exageros: pontos para a pesquisa. Há, sim, uma distribuição de sotaques, pois a produção entendeu que, por conta de uma compleição mais nórdica em uma Bahia negra e mestiça, os personagens vividos por Gabriel Braga Nunes e Camila Morgado deveriam ser“estrangeiros”. Curioso é que Margareth Menezes, como fizera Ivete Sangalo em Gabriela, é ela mesma nas vestes de uma delegada durona que investiga o crime.

Outra coisa que não Ó Paí, Ó, caricatural e reducionista, ainda que talvez não seja justo compará- los, O Canto da Sereia, para não correr riscos em um terreno pantanoso, privilegiou o suspense, a trama, o drama de Sereia. E do lado de cá, nós ficamos a pensar o que aconteceria de verdade com a Bahia se a vida imitasse a arte em plena terça- feira gorda de carnaval. Seria, sim, o fim do mundo.
Ou não?

raullbm@hotmail.com

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