A estética do frio e a reação ao Brasil tropical

24/02/2013

Principal desdobramento da bossa nova, o movimento do tropicalismo preparou terreno para ideias como a estética do frio, assinala Vitor Ramil. Reagir ao estereótipo do gauchismo e trazer à tona nossas nuanças “escondidas sob os excessos de cor local” é a tentativa dessa estética sulista

Por: Márcia Junges, IHU On Line

Vitor Ramil

“Tropicalismo e estética do frio, guardadas as diferenças, a representatividade e a importância de cada um, olharam o mundo ao redor a partir de um novo ponto de vista, com a intenção de instaurar a leveza. Se há alguma reação consciente da estética do frio ao tropicalismo, ela é indireta”. A reflexão é do músico Vitor Ramil, na entrevista exclusiva que concedeu por e-mail à IHU On-Line, dando continuidade ao debate proposto pela edição 411 da revista IHU On-Line, intitulada Tropicalismo. O desejo de uma modernidade amorosa, publicada em 10-12-2012 e disponível em http://bit.ly/c13mqH.

Autodeclarado “cria dos tropicalistas”, sobretudo de Caetano, ele não acredita que o tropicalismo inaugure um estereótipo. Em sua opinião, esse movimento “abriu as portas da modernidade ao nos dizer: ‘estejam atentos a tudo, não tenham preconceitos, reinventem-se sempre’. O estereótipo do Brasil tropical, que vem de antes do tropicalismo, apenas o absorveu. As bananas já tinham subido à cabeça de Carmem Miranda”. De certo modo, acrescenta, “a estética do frio reage ao estereótipo do Brasil tropical como marca de identidade para todos os brasileiros, que é como o senso comum, dentro e fora do país, tende a reconhecer o nosso país tão diverso”.
Vitor Ramil é natural de Pelotas, na região Sul do Rio Grande do Sul. É músico, cantor, compositor e escritor. Sua discografia, variada e de sonoridades inquietantes, sempre renovada, iniciou-se em 1981 com Estrela estrela, seguida de A paixão de V segundo ele próprio (1984), Tango (1987), À beça 1995), Ramilonga (1997) e Tambong (2000). Em 2004 lançou Longes, a seguir Satolep sambatown (2007), Délibáb (2010) e recentemente veio a público Foi no mês que vem (2012). Escreveu Pequod (Porto Alegre: L&PM, 1999) e Satolep (São Paulo: Cosac Naify, 2008), firmando o enlace entre música e literatura em sua carreira. Na década de 1990 inicia uma reflexão sobre a identidade sulista, que resultou na formulação de A estética do frio (Satolep Livros, 2004), na qual conclui que o Rio Grande do Sul não estava à margem do centro do Brasil, mas era, isso sim, o centro de uma outra história.

Conheça mais sobre Vitor Ramil acessando seu site: http://www.vitorramil.com.br/

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em entrevista à nossa publicação, disseste que “enquanto região Sul, somos muito diferentes do ‘Brasil tropical’. Seria importante enfrentarmos nossos clichês e percebermos como é a nossa brasilidade, como é ser brasileiro nesse lugar, nessas condições geográficas e culturais” . Poderia aprofundar essa ideia?

Vitor Ramil – Acho que é importante que um povo possa sempre olhar para si mesmo com um ponto de vista renovado. Isso traz a leveza, como formulou Ítalo Calvino. Acho que no Rio Grande do Sul estamos num vivo processo de nos livrarmos de velhos pontos de vista. E a cada novo paradigma que se instale, deve sobrevir um novo olhar.
IHU On-Line – Em que medida a estética do frio é uma espécie de contraponto ao tropicalismo? Pode-se falar nesses termos?

Vitor Ramil – Pode-se dizer que a estética do frio reage ao estereótipo do Brasil tropical como marca de identidade para todos os brasileiros, que é como o senso comum, dentro e fora do país, tende a reconhecer o nosso país tão diverso. Da mesma forma, a estética do frio reage ao estereótipo do gauchismo e tenta trazer à tona nuanças nossas que ficam escondidas sob os excessos de cor local.
Em relação ao tropicalismo, não vejo contrapontos. Essa impressão talvez se faça pela oposição dos termos tropical e frio. O que há, sim, é uma diferença de temperamento: toda a retórica tropicalista fala em nome do Brasil, como faziam os modernistas de 1922 a partir de São Paulo. Nós gaúchos somos muito austeros, muito perfil “bajo”, como nossos vizinhos uruguaios, para pretender falar com toda essa abrangência. Nós falamos, no máximo, em nome do Brasil que somos.
IHU On-Line – Há pontos de aproximação entre essas duas concepções culturais? Se sim, quais seriam eles?

Vitor Ramil – Em primeiro lugar, é preciso fazer uma diferença. O tropicalismo foi um movimento, e a estética do frio não o é. Mas ainda assim podemos definir muitos pontos de contato entre as duas concepções, até porque sou cria dos tropicalistas, especialmente de Caetano , que foi, se não o único, o principal homem de ideias do movimento. Há quem diga que o tropicalismo pôs abaixo as conquistas da bossa nova, mas na verdade foi seu principal desdobramento. A diferença é que a bossa nova foi um movimento de síntese e o tropicalismo foi ao encontro de todas as coisas a partir dessa síntese. Ao abrir-se e abrir-nos a todas as coisas, preparou terreno para que outras ideias, como, modestamente, a estética do frio, voltassem a fazer um movimento de síntese. São ciclos. Uma coisa leva à outra.
O tropicalismo reagiu ao viés esquerdista–nacionalista da música brasileira da época, que fatalmente engessaria o ambiente de invenção estabelecido pela bossa nova. Também a estética do frio começou reagindo a um estado de coisas em tudo imobilizador. Esse ponto em comum básico entre as duas concepções nos faz voltar à resposta anterior: tropicalismo e estética do frio, guardadas as diferenças, a representatividade e a importância de cada um, olharam o mundo ao redor a partir de um novo ponto de vista, com a intenção de instaurar a leveza. Se há alguma reação consciente da estética do frio ao tropicalismo, ela é indireta. Ao desejar a síntese, eu reagi ao ecletismo da MPB de quando eu tinha 20 e poucos anos (até porque o tropicalismo era coisa já distante para que eu pretendesse reagir a ele). O ecletismo me parecia um fade-out tropicalista, um apagamento, um resquício empobrecedor da abertura de leque original, um chamado à preguiça e à diluição. Foi quando, arbitrariamente, elegi a milonga como música matriz. Eu queria definir um ponto de referência, determinar um caminho simples onde pudesse ver nitidamente meus próprios passos. Os tropicalistas fizeram isso com Caymmi , de certa maneira. Mais um ponto em comum…
IHU On-Line – Em que aspectos o tropicalismo rompe e, paradoxalmente, inaugura novos estereótipos culturais em termos de Brasil?

Vitor Ramil – Sobre a ruptura, já falei acima, em parte. Daria para incluir nessa ruptura a chegada da Bahia com força num cenário dominado pelo Rio e pelo samba como música “nacional”. Depois, não acho que o tropicalismo inaugure um estereótipo. Como disse acima, acho que ele abriu as portas da modernidade ao nos dizer: “estejam atentos a tudo, não tenham preconceitos, reinventem-se sempre”. O estereótipo do Brasil tropical, que vem de antes do tropicalismo, apenas o absorveu. As bananas já tinham subido à cabeça de Carmem Miranda.
IHU On-Line – O tropicalismo influenciou tua carreira artística de alguma forma?

Vitor Ramil – Completamente, e de uma forma curiosa. Por exemplo, só adulto é que vim a saber que Coração materno, de Vicente Celestino , regravada por Caetano com arranjo impactante do Duprat , era considerada de mau gosto e que incorporar algo dito de “mau gosto” ao repertório era parte da estratégia tropicalista. Para mim, garoto, era uma canção antiga muito boa de cantar e pronto. Eu estava acostumado a ouvir e a cantar velhos tangos que meu pai amava. Coração materno pertencia àquele universo, e o fato de Caetano cantá-la fazia com eu me sentisse muito próximo a ele em termos de sensibilidade. Eu passava de Strawberry fields forever  a Coração Materno com muita naturalidade. Pode haver algo mais tropicalista do que isso?

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4842&secao=412

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