Doce amargo da vida ganha sabor em O Mistério de Lulu

28/02/2013

lulu

Por Marcos Pierry

Já se foi o tempo em que as bancas de revista vendiam apenas revistas e jornais. Do cigarro e do dropes, passaram também a oferecer fichas telefônicas, filmes fotográficos, fitas VHS – os três hoje peças de museu – e ainda livros, CDs e, o que interessa aqui, DVDs de bons filmes. Ao correr os olhos nas bancas, o leitor, ou cinéfilo, pode ter a surpresa de encontrar um Fellini, um Eric Rohmer ou um legítimo Charlie Chaplin dando sopa. Quase sempre a um preço convidativo.

O Mistério de Lulu (98) foi uma dessas surpresas, encontrada dias atrás. O norte-americano Paul Auster já era um escritor reconhecido quando se envolveu com o cinema. Seus contos, romances e crônicas renovaram o fetiche nova-iorquino e ele tinha tomado parte em dois filmes de êxito – Cortina de Fumaça e Sem Fôlego, ambos em parceria com Wayne Wang – antes de dirigir essa produção.

No filme, bem ao estilo de Auster, Nova York, a big apple, não é vista a partir dos que dão a grande mordida. Os que mordiscam a fruta no varejo também têm coração, possuem um olhar próprio e podem gerar uma moldura, uma sensibilidade diferente. Podem até esconder-revelar grandes histórias, mesmo se constituídas de pequenas fábulas que retiram o cotidiano do completo ordinário.

A metrópole encarada como um labirinto que dá no vazio para daí, do vácuo existencial, emergir uma história de quimera e desencanto, que cruza o tempo presente da ficção com algo do passado – real ou imaginado. Mas que passado é esse? Das antigas narrativas de magia, romance e superação? Da maestria de uma arte, o cinema, que tem no seu auge nomes como Pabst ou os musicais da Metro? Ou o passado biográfico dos próprios personagens? Toda a sorte de pretéritos entra em jogo com a devida sutileza em O Mistério de Lulu.

Auster vai retirando as camadas de poeira antes mesmo de nos dá a certeza de termos uma história. Tudo é meio incerto no filme. Há um terceiro personagem, Stanley Mar, que pode ser a chave de tudo. Izzy Maurer (Harvey Keitel) já o conhece morto, estirado em um beco, baleado no meio da testa. Celia Burns (Mira Sorvino) talvez tenha saído com ele um ano antes, um cliente do restaurante onde trabalha. Ao se deparar com o corpo do estranho na rua, Izzy vê e leva para casa uma pequena caixa com o que parece ser uma pedra, um pequeno pedaço de parede, e junto um guardanapo com o fone da garçonete. O contato com o objeto transforma o estado de ânimo e o modo como Celia e Izzy encaram o correr dos dias. Tocados por uma súbita motivação para a vida, não demoram a se sentir recíproca e profundamente ligados, mais humanos.

O diretor dispõe as cartas de sua fábula contemporânea de desencanto com objetividade e leveza, sem grandes truques de cena. Apenas o suficiente para o envolvimento desarmado, capaz de nos mostrar o quão tocante pode ser o infortúnio. E quão elegante pode ser uma quase história. Em torno do breve convívio amoroso que Izzy e Celia projetam sobre a narrativa, monta-se um plot de thriller, que desdobra algumas sequências sobre o assassinato do tal Stanley e o paradeiro da pedra milagrosa. Os dois ou três chutes que os capangas do Dr. Van Horn (Willem Dafoe) aplicam no corpo frágil de Izzy dão ao protagonista uns pigarros de testosterona bem adequados. Ele já havia contado a Celia sobre seu passado de gestos pouco civilizados, quando resolvia as coisas meio na porrada. Os descompassos lhe evitam a pieguice e a obviedade.

O mesmo pode ser dito sobre o enredo. A trama segue com fluência de sobra para operar no limite da verossimilhança, brincar com os limites até romper a barreira e dar vazão a enfoques mais particulares, como os pequenos delírios franqueados para A Caixa de Pandora e Cantando na Chuva, bem ao gosto da cinefilia mais romântica.

As referências ao próprio cinema encontram o núcleo dramático que apresenta os bastidores de uma produção: Celia acaba sendo escolhida para um papel principal. É sua primeira grande chance como atriz. O filme fictício é dirigido pela personagem de Vanessa Redgrave, uma diretora veterana que divaga sobre a própria aposentadoria enquanto exala, em suspiros pouco inflados, suas quase lições de vida. Enquanto Celia viaja para as filmagens, Izzy é sequestrado pela gangue de Dafoe. Nem sob tortura, o saxofonista admite toda a verdade. Mas também não é o culpado de quem Van Horn está à procura.

Os fios da culpa que o personagem expia são tecidos em ponto duplo e, outra vez, deixam a fresta para desconfiarmos do purgatório sem, no entanto, invalidarmos o castigo por completo. Izzy nunca foi nenhum santo, aliás como qualquer mortal. Mas estaria a pagar por seus próprios atos? Ou linhas tortas lhe punham uma pena desmedida? Quanto custa um coração de pedra à meia idade? Talvez quase nada se o afeto prevalecer. Mas, por seu turno, o afeto talvez de nada valha se lhe faltar um pulmão.

Mira e Keitel acertam no tom. Calibram seus registros com precisão e toque pessoal, mantendo uma naturalidade que oculta o estilo discreto do diretor mesmo nos lances de maior emoção. São os protagonistas ideais para a dor elegante da fábula de Auster.

O cineasta se permite ainda a valorização do elemento musical, e faz isso de diferentes formas. Izzy é um jazzman que não poderá mais tocar. Feras do gênero, como o clarinetista Don Byron, participam da jam session que abre o filme. Lou Reed e David Byrne também entram em cena fazendo pontas de luxo. Sofrer também é merecimento, e tanto melhor se revelar o sublime.

Marcos Pierry é jornalista, crítico de cinema e cineasta

3 Respostas to “Doce amargo da vida ganha sabor em O Mistério de Lulu”

  1. Araripe Says:

    Filmão que eu amo.

    O roteiro que lida com Reversão de expectativa, daria régua e compasso para filmes posteriores de Roliúde, como O sexto Sentido, Os outros e o Clube da luta.

  2. redatorlc Says:

    Acho que quem também ama é o Flavio Oliveira, que foi da equipe da ascom dO Pai do Rock/Três Histórias. E tem ainda o Cortina de Fumaça e o Sem Fôlego, que saborosamente destacam uma novaiorque provinciana, no melhor sentido que o termo pode ter. Um autêntico ‘cinema de bairro’ na maior cidade do mundo (expressão que vi alguém dizer no doc do G Sarno sobre David Neves). Acho que o Paul Auster diretor está parado e acabou esquecido e subestimado. Já o escritor sobrevive, e muito bem, inclusive de HQ, que você pratica e venera.
    abraço, Arara!

  3. redatorlc Says:

    assinando: sou eu, Arara, PIERRY


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