Índios do Sertão – Bahia Singular e Plural

16/03/2013

Parte 1

Parte 2

Por Josias Pires
“Índios do Sertão” é o décimo quarto documentário da série “Bahia Singular e Plural”. Foram gravados para este programa o toré dos índios Kiriri de Mirandela, no município de Banzaê; o toré dos Tuxá de Rodelas; e a dança dos praiá, feita pelos Pankararé, de Nova Glória – estes dois últimos municípios localizados às margens do rio São Francisco, no norte da Bahia.

O documentário traça um panorama da história recente desses três povos indígenas da Bahia e, apoiado em depoimentos dos índios e dos antropólogos Pedro Agostinho, Maria do Rosário, José Augusto Sampaio e Marco Tromboni apresenta algumas questões relacionadas a situação dos índios do Nordeste. Houve uma época, por exemplo, que havia dúvidas acerca da própria existência de índios nessa região, pois se acreditava que eles teriam sido extintos durante o período colonial e que todos os seus descendentes estariam dissolvidos na sociedade envolvente e teriam assumido a categoria de “caboclos”.

Apesar de ter sido dramático o contato das populações indígenas do Nordeste com os colonizadores europeus, que trataram de “limpar” a região da presença indígena para a criação extensiva do gado, o fato é que houve um elemento que contrabalançou a tendência ao extermínio dos índios. Este elemento foi o padre missionário, que plantou missões católicas ao longo das estradas das boiadas e nelas aldeou índios de várias etnias. Quem não morreu, quem não fugiu para o interior mais longínquo ou não foi capturado para ser escravo, passou a viver nessas missões.

Depois de extintas as missões católicas, em 1759, por decisão do Marquês de Pombal, os índios ficaram desprotegidos. As antigas aldeias viraram vilas e municípios, onde índios e não-índios passaram a conviver, partilhando suas diferenças e semelhanças. Vem daí a categorização de caboclos para os descendentes dos índios ditos “primitivos”. Acontece, porém, que muitos desses ‘caboclos’ continuaram a viver nas áreas das antigas missões católicas e, ao longo do século XX, passaram a reivindicar direitos sobre os territórios das missões e a afirmarem a sua indianidade. Para isso lançaram mão de práticas rituais diferenciadas dos não-índios, como o toré e o praiá, nos quais o consumo da bebida feita da juremeira tem um papel fundamental.

O toré é uma dança mas também inclui práticas religiosas secretas, às quais só os índios têm acesso. O objetivo ritual do toré é a comunicação com os encantos ou encantados, que vivem no reino da jurema ou juremá, referência à bebida feita com a casca da raiz da juremeira. Quanto à dança propriamente dita, ela assume características diferentes em cada uma das comunidades indígenas. Entre os kiriri, o toré é dançado quase todos os fins de semana e reúne homens, mulheres e crianças. Eles dançam em círculos, em sentido anti-horário, fazendo e desfazendo sucessivas espirais. Entre os tuxá de Rodelas a dança não acontece com a mesma frequência, mas apenas em ocasiões que eles consideram especiais. O grupo dança formando quatro filas, que fazem variadas coreografias, criando movimentos de rara beleza.

Já a dança do praiá é feita apenas pelos pankararé. Praiás são as entidades espirituais desses índios, que se incorporam apenas nos homens. Eles se vestem de máscaras rituais que cobrem todo o corpo. Os praiás formam uma espécie de sociedade secreta, que se reúne também na casa da “ciência do índio”, também chamado de poró. Neste local eles realizam atividades mágicas e religiosas voltadas para a cura de problemas de saúde dos índios que procuram a “ciência”.

TERRITÓRIO – A luta pela conquista dos seus territórios mobilizou os índios do Nordeste nos últimos 50 anos. No caso dos pankararé, que vivem na região da antiga Missão de Santo Antônio da Glória, eles tiveram que enfrentar uma firme reação da população não-índia, que resultou no assassinato do cacique Ângelo Pereira Xavier, em 1979, e também em sucessivas agressões contra as práticas rituais dos índios, inclusive com a queima e destruição do ‘poró’, a casa ritual dos pankararé. Acossados pelas pressões dos ditos “brancos”, os índios resolveram transferir o terreiro do ‘poró’ para o Amaro, um platô coberto de caatinga no Raso da Catarina, onde a equipe da TV Educativa gravou a ‘festa do Amaro’. Nesta festa eles fazem, durante o dia, uma espécie de romaria entre o terreiro da “ciência do índio” e um cruzeiro levantado na serra; e à noite dançam o praiá.

Os tuxá de Rodelas vivem nos últimos 15 anos uma situação trágica. Sua velha aldeia e as terras onde produziam alimentos foram inundadas pelas águas do lago da barragem de Itaparica. Parte dos índios foram transferidos para outros municípios, mas os que ficaram em Rodelas continuam sem terra para trabalhar e sobrevivem com um salário mensal pago pela Chesf. O grupo está sofrendo intensos processos de desestruturação interna e, se uma solução não for encontrada em pouco tempo, os tuxá de Rodelas correm o risco de desaparecimento.
Quanto aos kiriri de Mirandela, a situação do território já foi resolvida, depois de quase trinta anos de luta. A área da antiga Missão da Ascenção do Saco dos Morcegos foi homologada como terra indígena em 1990 pela Presidência da República.

MEMÓRIA – Através do “Bahia Singular e Plural”, iniciado em 1997, o IRDEB/TVE-Bahia realizou o maior registro audiovisual da cultura popular tradicional da Bahia. As equipes da emissora percorreram mais de 70 mil quilômetros, reunindo, em mais de 400 horas de gravação, sons e imagens de 320 manifestações de 82 municípios. Além dos documentários, a série inclui também a versão fonográfica, coordenada pelo etnomusicólogo Fred Dantas, uma coleção de seis CDs

Ficha Técnica
Realização: TVE Bahia – Novembro/2001
Projeto: Paolo Marconi
Pesquisa, Produção e Roteiro: Josias Pires
Direção: Josias Pires, Ângela Machado e Guilherme Marback
Edição: Guilherme Marback
Pós-produção: Anna Ventura
Narração: Carlos Alberto
Imagens: Flávio Silva, Sandro Abade e Itajubá Lobo
Duração: 60 minutos

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