Romário denuncia papel do chefão da CBF no assassinato de Vladimir Herzog

17/03/2013

romario

O atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin era deputado estadual pelo estado de São Paulo em 1975. No dia 9 de outubro daquele ano, cobrou no plenário da Assembleia Legislativa providências contra o jornalismo da TV Cultura, emissora da qual Wladimir Herzog era diretor. Quinze dias depois Vlado foi assassinado nos porões da ditadura. Entenda o caso lendo o discurso de Romário e a reportagem sobre do jornalista britânico Andrew Jennings.

“Eu faço parte de um partido de muitas lutas, muitas batalhas.

Batalhas que nem sempre foram vencidas, mas que sempre valeram a pena, porque expressam nosso anseio por justiça e liberdade.

Refundado, em 1985, por homens e mulheres que resistiram à ditadura militar, sofrendo perseguições e mandatos cassados, o PSB denunciou a tortura num dos seus primeiros programas de televisão, e defendeu a punição rigorosa para esse tipo de crime.

Entre meus colegas de bancada está uma mulher de luta, a deputada Luiza Erundina, defensora histórica dos direitos humanos.

Ela coordena, hoje, nesta Casa, a Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça, que tem o objetivo de acompanhar e apoiar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, na revelação de fatos, ainda obscuros, que ocorreram durante a ditadura civil-militar, no período de 1964 a 1985.

A criação da Comissão Nacional da Verdade é uma obrigação moral e política que decorre do reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de que ele teve, sim, responsabilidade por crimes cometidos durante a última ditadura, e, por isso, deve esclarecimentos e reparação às famílias das vítimas – isto é, das pessoas que foram torturadas e assassinadas por agentes do Estado naquele período.

Esse reconhecimento aconteceu lá atrás, em 95, com a edição da Lei nº 9.140, no governo FHC.

Minha amiga Erundina deu uma contribuição importante nessa busca da verdade, quando ocupou a Prefeitura de São Paulo e determinou a abertura de uma vala clandestina localizada em um cemitério municipal, que levou à descoberta, entre as 1.049 ossadas, de corpos de OITO desaparecidos políticos. Este episódio resultou, também, na criação de uma CPI na Câmara de Vereadores da capital.

Este foi o início da abertura dos arquivos sobre aquele período.

Esta Casa, que teve suas portas fechadas durante o regime de exceção, cumpriu parte do seu dever ao atender o pleito da Deputada Erundina, e restituir simbolicamente os mandatos dos 173 deputados federais cassados pela ditadura.

Muita gente não sabe, mas o Sr. Marín, antes de entrar para o milionário negócio do futebol, chegou a ter algum destaque como político.

Ele presidiu a Câmara de Vereadores de São Paulo e, antes de se tornar governador do Estado, foi deputado estadual pela ARENA, o partido da ditadura.

Foi nessa ocasião, em 9 de outubro de 1975, que ele fez um duro pronunciamento, contra a TV Cultura, ao apartear no plenário o deputado Wadih Helu.

No seu aparte, o Deputado Marín exigia que fossem tomadas providências, segundo ele, em nome da “tranquilidade dos lares paulistanos”, como está registrado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, do dia 09 de outubro de 1975, página 62, que solicito conste nos anais desta Casa.

Não sei que providências ele tinha em mente.

O que sei, e que todos nós sabemos, é que no dia 24 de outubro daquele mês, o Diretor de Jornalismo da TV Cultura, Vladimir HERZOG, foi convocado para depor no DOI-CODI, e apareceu morto em sua cela, no dia seguinte.

A farsa da simulação de suicídio e o culto ecumênico realizado na Catedral da Sé para protestar contra a tortura, após a divulgação da morte de Herzog, já fazem parte da nossa História.

Mesmo com medo da repressão, pois havia câmeras estrategicamente posicionadas nas saídas da igreja, filmando cada um dos participantes, 8 mil pessoas saíram às ruas e transformaram o culto ecumênico na maior manifestação do povo brasileiro contra a ditadura.

Com certeza, Senhor Presidente, muita coisa ainda falta ser esclarecida, e a sociedade brasileira tem o direito de conhecer toda a verdade.
Muitos de nós parlamentares, bem como a Presidente Dilma e o conjunto da sociedade brasileira, têm interesse em saber se o Sr. José Maria Marín, hoje presidente da Confederação Brasileira de Futebol, manteve, naquele período, alguma relação com os órgãos da repressão, como, por exemplo, o DOI-CODI.

E também se ele contribuiu com crimes de violação dos direitos humanos no país.

Perguntaram ao senhor Nilmário Miranda, Presidente da Comissão da Anistia, se a Comissão da Verdade vai revelar o que os atletas sofreram durante a ditadura. A resposta dele foi a seguinte: “o Estado tem obrigação de revelar a verdade, reparar moralmente e até financeiramente as vítimas da tirania. O país está descobrindo que o direito à verdade é um direito irrenunciável”.
Neste contexto, podemos citar craques e ídolos do nosso futebol, como Afonsinho, Nando, Reinaldo, Sócrates e Vladimir, que sofreram com a repressão.

Por isso, senhor Presidente, vou propor a realização de uma audiência pública conjunta entre a Comissão de Turismo e Desporto, que, hoje, presido, e a Comissão Memória, Verdade e Justiça, para debater o tema “o futebol e a ditadura”, e gostaria de contar com a participação da Comissão Nacional da Verdade para que compartilhe e traga tudo o que já tiver sido levantado sobre este assunto.

Quero também contar com a colaboração de todos que tenham informações sobre episódios da época, para nos ajudar a revelar a verdade que buscamos.

As suspeitas sobre o Presidente da CBF são graves e constrangedoras. Nós, atletas e ex-atletas, ficamos muito desconfortáveis com esse tipo de situação, principalmente num momento em que o Brasil se expõe ao mundo, ao se preparar para receber megaeventos esportivos.
Será que merecemos ter à frente do nosso esporte mais querido, mais popular, um esporte que orgulha o nosso povo, uma pessoa suspeita de envolvimento, ainda que indireto, com tortura, assassinato e a supressão da democracia?

Será que a CBF, que comanda um esporte intimamente vinculado à cultura nacional, pode ser dirigida por alguém que pedia a repressão a uma emissora estatal de televisão, a TV Cultura, à qual estava vinculado Vladimir Herzog?

Não podemos esquecer que a nossa seleção gera expressivos recursos financeiros à CBF, que explora nossos símbolos: o nome do país, o hino, a bandeira e suas cores. Eles geram dividendos que ultrapassam os 100 milhões por ano, só de patrocínio, sem que tenhamos a transparência devida sobre a destinação desse dinheiro.

Será que dentre 200 milhões de brasileiros, é justamente ele quem melhor preenche os requisitos?

Que imagem o Brasil passa para o mundo e para a história do futebol, tendo à frente da CBF e do COL um personagem com este perfil?

Tenho observado que a Presidente Dilma tem dificuldade de engolir o presidente da CBF. Assim como o ministro Aldo Rebelo também tem, principalmente agora, depois da divulgação da gravação em que Marín diz as bobagens que pensa sobre o Ministro de Esportes.

Quero dizer que discordo de tudo o que disse sobre o ministro, viu, senhor Marín?

Então, será que, como presidente do COL e da CBF, Marín terá tranquilidade para figurar ao lado da Presidente Dilma e do Ministro Aldo Rebelo na recepção às autoridades estrangeiras?

Acho que o Sr. Marín não tem o direito de chamar de “delinquentes”, como pode ser conferido no site da CBF, aqueles que simplesmente buscam a transparência e a verdade.

O que a sociedade brasileira reivindica é o acesso à informação, aos fatos, o que é um direito de todos, e que o Estado tem o dever de propiciar.

Os tempos de intimidação e silêncio, graças ao Papai do Céu e à sociedade brasileira, são página virada na nossa História.

E só por isso estamos aqui, podendo dizer o que pensamos.

Era o que tinha a dizer, Senhor Presidente.

Muito obrigado”

Aqui reportagem sobre a ligação do presidente da CBF com a ditadura brasileira: http://www.apublica.org/2013/02/qual-papel-chefao-futebol-brasileiro-assassinato-de-herzog

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