Marujada – Bahia Singular e Plural

19/03/2013

Por Josias Pires

“Marujada” é uma rapsódia, uma colagem que reúne, num longo espetáculo de dança, música, cantos e falas — que pode durar até dois dias -, fragmentos de velhos romances cantados portugueses e músicas tradicionais de variadas fontes. Foram gravadas para este documentário festas de marujada nos municípios de Paratinga, Saubara, Jacobina e Prado.

A Marujada, também conhecida como Chegança de Marujos, é um folguedo popular que embarca o espectador no imaginário das grandes navegações dos séculos XV, XVI e XVII. Tais navegações viabilizaram a expansão colonial de países europeus por novos continentes e proporcionaram o encontro de povos e as novas civilizações. Lançados ao mar, os homens da época criaram novos gêneros literários — como os relatos de naufrágios -, e novas canções, danças e dramas que se espalharam pelos novos mundos.

Estudiosos do assunto, como Mário de Andrade, acreditam que as marujadas, apesar de estreitamente vinculadas ao imaginário das navegações européias, teriam sido inventadas no Brasil, escritas em “folhetos” (os também chamados “foiêtes”) feitos por poetas locais. Eles teriam reelaborados, num longo espetáculo, textos e sonoridades de diferentes origens, como os romances orais, dos quais o mais famoso é o da Nau Catarineta, que conta a história de um navio perdido sete anos e um dia no mar. As músicas e danças vieram dos europeus e de negros e índios; músicas e danças rituais, coletivas.

TEATRO EMBARCADO – Pesquisas recentes (Teatro a bordo de naus portuguesas nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII, Ed. Nórdica, 2000) do historiador Carlos Francisco Moura revelam que as embarcações portuguesas, que se aventuravam pelo “mar tenebroso”, costumavam ser usadas também como palco para festas lúdicas e religiosas, como procissões em dias santos e batucadas para comemorar o fim de angustiantes tempestades.

É bom lembrar que aquele foi um tempo de sonho e desespero: a cada viagem entre a europa e o novo mundo, que poderia durar até seis meses, centenas de vidas desapareciam nas águas; as tempestades, a fome, as doenças arrebentavam as embarcações e seus tripulantes… mas nada disso impediu que o atlântico fosse ultrapassado. Afinal, o lema da época era ‘navegar é preciso, viver não é preciso’.

É este sentimento aventureiro, épico, que permanece vivo nos espetáculos das marujadas, hoje espalhadas por diversas regiões da Bahia — principalmente nas cidades litorâneas e nas do vale do rio São Francisco. Estas marujadas podem ser vistas em duas variantes: as marujadas processionais, nas quais o espetáculo se desenrola durante o cortejo que marujos e oficiais de uma embarcação imaginária fazem pelas ruas da cidade, batendo pandeiros e tocando violas; e as marujadas que apresentam as “danças dramáticas”, que os marujos chamam de “rezingas”, episódios quase sempre cômicos e trágicos envolvendo os tripulantes.

Na marujada de Saubara aparecem os episódios ‘rezinga do Guarda-marinha’, que tematiza a história de um contrabando de especiarias praticado por um oficial na embarcação; a ‘rezinga do piloto’, que conta a história de um quase naufrágio, provocado por um piloto bêbado. E a “rezinga do Calafatinho”, o drama do menino que jogou no mar a agulha de marear.

FESTAS DE SANTOS – As marujadas costumam ir para as ruas durante as festas dos santos padroeiros. E muitas marujadas têm são Benedito como patrono — este fato é um claro indicador de que foram as populações negras as principais responsáveis pela difusão e permanência das marujadas na Bahia.

A procissão de são Benedito pelas ruas de Jacobina é a maior que se realiza anualmente na cidade, apesar do padroeiro ser Santo Antônio. E no Prado, extremo-sul da Bahia, a apresentação da marujada começa a ser feita seis meses antes por um grupo de fiéis que fazem uma esmola cantada (violão, pandeiros, caixa), “a esmola de são benedito’ – eles peregrinam pela zona rural do Prado e municípios vizinhos (Porto Seguro, Itamaraju e Jucuruçu), percorrendo algumas centenas de quilômetros para ajudar a organização da festa e receber pagamentos de promessas feitas ao longo do ano em cada localidade em que passam.

Ficha Técnica
Realização: TVE Bahia — Agosto/2001
Projeto: Paolo Marconi
Produção e Pesquisa: Josias Pires
Roteiro: Josias Pires, Elizabete Rodrigues e Vander Prata
Direção: Josias Pires e Ângela Machado
Edição e pós-produção: Anna Ventura
Narração: Carlos Alberto
Imagens: Flávio Silva e Sandro Abade
Duração: 30 minutos

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