Cuíca de Santo Amaro, esteta das partes baixas

22/03/2013

Cuica abert-03

por Josias Pires

“Me parece que os jornais / Da Bahia são comprados / Pois fatos palpitantes / Ficam na redação / Eternamente arquivados. // Digo eu esta verdade / Porque isto é o meu dever / Coisas sem importância / Os jornais sabem escrever / Porém o que interessa / Fica o povo sem saber”.

Um personagem sobre o qual deveríamos silenciar. É o que pensa muita gente de bem que se recusou a gravar depoimentos sobre Cuíca de Santo Amaro para o filme documentário de longa metragem que dirigi com Joel de Almeida, concluído em janeiro de 2012. Tal recusa apenas comprova que o desabusado “trovador repórter” continua sendo temido e odiado por pessoas aparentemente “bem pensantes”, contemporâneas de Cuíca (1907-1964), que ainda o tomam como personagem menor, marginal, insignificante, que deveria ser esquecido.

Quando saiu a primeira notícia sobre a realização do filme, publicada no jornal A Tarde, o texto foi reproduzido num blog sobre Cordel, que recebeu quase uma centena de comentários negativos. A maioria achou um despropósito fazer filme sobre Cuíca de Santo Amaro; e vários comentaristas questionaram a razão pela qual a película não seria sobre o poeta Leandro Gomes de Barros, como se tivéssemos preterido um em favor do outro. Um despropósito. Evidentemente seria maravilhoso fazer uma obra audiovisual sobre o poeta paraibano. Mas que história é essa de que a memória de Cuíca de Santo Amaro deva ser jogada na lata de lixo da história?

É certo que a poética de Cuíca não presta reverência ao acadêmico, ele trafega a léguas de distância do cordel canônico. E é bom que se diga: Cuíca de Santo Amaro não fazia cordel. Fazia “livrinhos de histórias”, como os folhetos eram chamados na sua época. A cobrança formalista sobre este poeta popular desmerece a grandeza da sua performance oral. Cuíca não precisava nem escrever, bastava falar, lembra Muniz Sodré. A sua poesia estava na Voz, no corpo e não no papel somente. Como na canção, as emissões vocais cobrem os espaços e o tempo que a métrica impressa exige. Na rua como na música a métrica é outra. Autor de poesias-reportagem, de poemas-piadas, ele foi uma espécie de modernizador da linguagem sem se filiar a nenhuma escola. É maldade reduzi-lo a uma nulidade poética.

O discurso de bom tom contra rimas imperfeitas e pés-quebrados tenta esconder a força da atuação de um poeta singular, corajoso, que sapecava a madeira em figurões, nas ruas e praças de Salvador e de outras cidades da Bahia, que fazia o bom e o mau combate, que acendia uma vela para deus e outra para o diabo; que enfrentava e se aliava com a polícia; e se valia da retaguarda que conseguia reunir para proteger-se no mundo cão em que vivia.

“Muita gente tem vontade / que a polícia me encane / acho eu muito possível / que esta gente se engane / pois estou ainda mais forte / e tão firme como arame”.

Até meados da década de 1950 a imprensa tratava Cuíca como um defensor do povo, um herói popular. Na segunda metade da década é que apareceram reportagens descrevendo os métodos de atuação daquele homem “desassombrado”. Métodos que fizeram d’Ele, O Tal, um poeta que incomodou a todos os poderosos que tinham algo a esconder; ao mesmo tempo que fez a alegria do povo nas praças e ruas da cidade com sua irreverência e destemor. Escancarou os “podres” de uma sociedade hipócrita, que se transformava célere em meio ao turbilhão de novidades que o mundo estava produzindo naquele momento. Fruto do seu tempo, Cuíca defendeu com versos em punho o seu próprio quinhão na guerra diária em que vivia.

Temido e odiado por alguns e amado pelo povo, Cuíca farejava e difundia fatos sempre presentes na história da humanidade: a própria miséria humana. “É desastre, é crime, é inundação, é tubarão explorando o povo, é galego sacaneando a população, é mulher xumbregando … o assunto veio, o folheto sai”, dizia. Era um Nelson Rodrigues popular. Um Gregório de Mattos sem gramática.

O boca de brasa saía todos os dias às ruas e exultava em dar nomes aos bois. Porém, quem não quisesse ter o nome sujo exposto em praça pública, que pagasse para que a informação deixasse de circular. Era um tipo perigoso, poeta picaresco. Macunaímico. Expressão mítica de um herói – e anti-herói – popular brasileiro.

Quem faz críticas fáceis e formalistas contra Cuíca pouco compreende que esta é uma personagem de mil faces. Andarilho das encruzilhadas, dos mercados e das feiras. O rei do deboche, do riso solto. Assumia os seus preconceitos, os vícios e defeitos e anunciava as suas virtudes, a maior delas: dizer a verdade. Cuíca de Santo Amaro é um personagem que traz o que Muniz Sodré chama de “rito de veridicção”: expõe verdades não-ditas, para não dizer malditas, incômodas e faz isto com o espírito do grotesco, do grotesco crítico, antecipatório, porém diferente do grotesco mundo cão da TV.

Cuíca de Santo Amaro é uma personagem que nos permite por o dedo na ferida no campo da comunicação. Afinal, teve a coragem, como um pequeno Davi, de encarar e expor podres do sistema de chantagens e extorsões na grande mídia, usual em todo o mundo e em todos os tempos. Cuíca defendeu o seu quinhão com as armas que conseguia reunir. Mas ao contrário de outros jornalistas e radialistas, que recebem suborno e se fazem de desentendidos, Cuíca condena esta hipocrisia, assumindo muitas e muitas vezes a sua produção poética como “matérias pagas”, sem esconder-se atrás do anonimato.

A sua ética era a do propagandista. Os amaldiçoados métodos de chantagem e extorsão atribuídos a Cuíca eram os mesmos utilizados pela imprensa da época. Querer condenar Cuíca e absolver o imperador da mídia, seu contemporâneo, Assis Chateubriand é a manutenção da mesma hipocrisia que Cuíca combatia. O buraco é mais embaixo. Cuíca põe ainda hoje no olho da rua a mesma questão: a venalidade de profissionais, radialistas, jornalistas e de proprietários de veículos de comunicação, que são subornados e pousam de vestais. Cuíca levanta o véu, desvela a cena e é injusto condena-lo. Como poucos naquele momento ele dava visibilidade ao que estava escondido, o fora de cena, o obsceno.

Quando nos aproximamos do personagem, portanto, damos de cara com um tipo altamente complexo, um esteta das partes baixas, como diria Bakhtin nos estudos sobre Rabelais. Esteta das partes baixas, poeta dos porões que espelha e distorce a vida dos becos, dos salões e das alcovas.

Sem essa de que a sua verve não serve. A tentativa de black-out na memória, a insistência de escrever a história da cultura baiana sem a presença de Cuíca de Santo Amaro felizmente não foi compartilhada, p. ex., por Dias Gomes e Jorge Amado. O mais traduzido escritor baiano imortalizou o trovador maldito em sua literatura. Em 1943 publicou no jornal “Diretrizes”, e em 1945, no livro “Bahia de Todos os Santos” textos que enaltecem o caráter de herói popular do Cuíca anti-fascista. Depois Jorge faria Cuíca personagem dos romances “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, “Pastores da Noite” e “Tereza Batista Cansada de Guerra”. E Dias Gomes revelou o trovador de corpo inteiro na peça “O Pagador de Promessas”, que virou o filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes (1962).

Cuíca de Santo Amaro é um arauto. O anunciador. O anjo torto, da boca torta, poeta livre desancando a hipocrisia. A vida privada nas ruas. A verdade que sai das bocas dos becos, dos subterrâneos. Os ricos já não podem continuar impunes. Ao lado deles ainda está a polícia e o Estado. Mas a voz das ruas agora tem Cuíca de Santo Amaro. O Trovador Repórter. Ele, O Tal!

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