Eucaliptos no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina

23/03/2013

Joás Brandão
Joás Brandão escreve manifesto contra a plantação de eucaliptos na Chapada Diamantina

Por Ezyê Moleda, Samuel Esteves, Nelson Mello e Ricardo Toscani

Joás Brandão, agente de proteção ambiental no Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA), escreveu nesta semana um texto de próprio punho pedindo o apoio da sociedade civil brasileira. O manifesto, que foi distribuido para os grandes meios de comunicação do país, avisa sobre a aprovação de uma grande plantação de eucalíptos nos arredores de uma área de preservação ambiental, que pode se tornar um desastre para a fauna e flora da Baixa da Onça.

Neste ano, Joás foi um dos homenageados do prêmio Trip Transformadores, justamente por seu trabalho de proteção na Chapada Diamantina.

Leia abaixo o texto completo do manifesto.

Palmeiras, Novembro de 2012

Está sendo licenciado no município de Palmeiras (Chapada Diamantina/BA) uma plantação de Eucalipto localizado na região da Baixa da Onça/ Tejuco /Esbarrancado. A área encontra-se a poucos metros do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em frente à Serra do Sincorá, limítrofe com a mata da Baixa da Onça. A Baixa é um capão de mata preservado que tem características de mata atlântica. É uma importante reserva de água, formando a cabeceira do rio Tejuco, rio que abaste as comunidades do Tejuco, Barriguda, Barra, Santa Bárbara, Sapé, Frio, Ribeirão, Taquari, Cruz, Laranja, Salgada, São Gerônimo, Mangibão, Várzea de Cima e Várzea de Baixo.

Outro aspecto relevante da Baixa da Onça é o seu processo histórico. A mata foi comprada pela comunidade local no começo do século passado (conforme documento original) com o intuito de salvar das mãos de madeireiros de Salvador a mata muito singular, de árvores de grande porte e valor econômico. Para a população, a mata e suas nascentes representavam mais que dinheiro. Para eles, a Baixa da Onça significava água para sua sobrevivência e do gado. Desse modo, o que reconheciam naquele momento era a importância hídrica e social da Baixa para a comunidade. Para muitos populares, aquele terreno historicamente era usado como zona de solta, que são áreas devolutas em que donos de gados criam seus animais livremente.

Atualmente toda a região tem sofrido uma forte ação antrópica e o principal sintoma é a perda do recurso hídrico da região. De modo geral, a população percebe claramente que o volume de águas dos cursos vem diminuindo de modo drástico. Assim, o adiantado processo de desmatamento, o declínio dos índices pluviométricos e os altos índices de grandes incêndios podem ser apontados como causas principais de um processo de desertificação da zona. Seria essa zona propícia ao projeto?

Para a plantação realizar-se, a Fazenda Bergamini, proponente do projeto, suprimirá uma importante área de vegetação em fase de recomposição e de significativa importância para seu entorno. Não acidentalmente, a fazenda propõem a plantação de eucaliptos justo ao lado da Baixa e dessa forma aproveitar seu rico, porém sensível, manancial.

É considerável destacar que a área faz parte da zona de amortecimento do Parque Nacional da Chapada Diamantina, e ficará bloqueada visualmente já que os eucaliptos formariam um espécie de cortina. A partir desse aspecto também se pode afirmar que o turismo seria outro setor afetado pelos eucaliptos. Vale ressaltar que o local faz parte de vários pacotes turísticos na parte oeste do Parque. O principal deles é o Vale do Pati chegando pela localidade de Guiné. A trilha do Pati é considerado internacionalmente como uma das mais belas, comparável a de Santiago de Compostela, na Espanha e Machu Picchu, no Peru. Grande parte dos turistas na Chapada circulam pela estrada Palmeiras/Mucuge e teriam que cruzar o eucaliptal para acessar o Vale do Pati. O local também é rota constante dos que fazem biking e trekking pela Chapada.

Detrás do desenvolvimento comercial do eucalipto estão várias empresas de celulose brasileiras/estrangeiras. Prometem desenvolvimento econômico e emprego. Mas, pelo fato de ser uma atividade altamente mecanizada, gera um taxa reduzida de emprego.

A introdução das plantações de eucaliptos nos entorno das Unidades de Conservação tem gerado grandes impactos e conflitos e é um projeto equivocado de desenvolvimento regional. Essa primeira experiência com eucaliptos no entorno do Parque da Chapada Diamantina pode em pouco tempo não ser apenas um fato isolado, mas um modelo que se multiplica e transformará a região num grande corredor de eucaliptos.

A plantação de eucalipto é uma monocultura que tem objeções científicas sérias. Afeta negativamente as populações locais nas regiões de implantação por conseqüência da falta de água, perda de biodiversidade e contaminação. Por isso, a monocultura de eucalipto é conhecida internacionalmente por “Deserto Verde”.

Desertos Verdes:
* Não podem ser chamados de florestas, nem sua implantação significa que se está reflorestando a região, uma vez que as florestas sempre têm milhares de outras espécies de flora e fauna. Não há animais que consigam sobreviver no eucaliptal, por falta de alimentos e excesso de aridez.
* Por seu rápido crescimento, os eucaliptos usam uma enorme quantidade de água subterrânea muitas vezes baixando ou até mesmo secando os solos e nascentes.
* Segundo Daniela Meirelles Dias de Carvalho, geógrafa e técnica da ONG Fase, mais de 130 córregos já secaram depois que o eucalipto foi introduzido no estado do Espírito Santo. As plantas de eucalipto, após o primeiro ano, precisam de 30 litros de água por dia para crescer gerando desequilíbrio hídrico na região.
* Estudo publicado em 1997 na revista Science afirma que a monocultura de eucalipto reduz em 52% o fluxo fluvial e 13% dos rios secam completamente em um ano. Mesmo após a erradicação da atividade, o retorno pleno da descarga fluvial demora mais de 5 anos.
* Na África do Sul e mesmo na Austrália onde o eucalipto é uma espécie natural, o debate já não é mais se o eucalipto seca ou não. Já consideram há muitos anos que o eucalipto plantado na forma de monocultura ameaça incisivamente o meio ambiente.

Desse modo, o Conselho Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Palmeiras manifesta seu repúdio à monocultura de eucaliptos na região proposta e convida a todos a participar dessa discussão.

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