A lagarta que comeu o agronegócio

13/04/2013

lagarta oeste

O caso da lagarta Helicoverpa foi parar em Brasília, via telefonema do governador Jacques Wagner para a presidenta Dilma Roussef. Ele explicou que a situação era de emergência e precisavam de um decreto autorizando a importação de três tipos de inseticidas que não tem registro no país.

Por Najar Tubino, Carta Maior

O título tem dois sentidos. O primeiro é literal, a lagarta Helicoverpa atacou lavouras de milho, soja e algodão, causando prejuízo de R$1 bilhão no oeste baiano, uma das últimas fronteiras do agronegócio, e se estendendo a outros 11 estados. No total prejuízo de R$ 2 bilhões. O segundo é figurado, porque a lagarta abriu o leque para mostrar que o glorificado setor do agronegócio no país, onde a soja representa no valor bruto de produção R$86 bilhões, aplica métodos de organização ultrapassados, mais parece prática de garimpo, do que outra coisa.

O caso da Helicoverpa foi parar em Brasília, via telefonema do governador Jacques Wagner para a presidenta Dilma Roussef. Ele explicou que a situação era de emergência e precisavam de um decreto autorizando a importação de três tipos de inseticidas que não tem registro no país. O decreto saiu no dia 14 de março, junto com a liberação de dois produtos biológicos, o baculovirus e o bacilo thurigiensis. Em Luis Eduardo Magalhães, central do agronegócio, um encontro reuniu pesquisadores da Embrapa de várias partes e de muitos sojicultores. Participaram mais de mil pessoas no evento.

O último cerrado
Vamos situar a encrenca. Primeiro lugar o oeste baiano com seu mais de um milhão de hectares plantados com soja, grande parte irrigada – são 982 pivôs centrais em funcionamento – é uma região bastante tecnificada, onde se planta além da soja, milho, algodão, em menor escala arroz e feijão. É uma área de cerrado, que foi desmatada e que, segundo boletim técnico da Secretaria da Agricultura, tem água abundante, e ainda três milhões de hectares para serem ocupados. No total a região tem uma área de oito milhões de hectares de cerrado, uma das últimas do país. Portanto, se ocuparem mais de quatro milhões, significa, mais da metade do cerrado transformada em lavoura.

Um pivô pode irrigar 130 hectares. Três pivôs atuando em conjunto usam 20 milhões de litros de água num ano. A água permite colher 82 sacos de soja por hectare, numa área sem irrigação, a produtividade cairia pela metade, principalmente se sofrer com a seca, como aconteceu no último ano. Acontece que os associados do agronegócio usam a água para plantar o ano inteiro. Não tem intervalo. Sai uma safra de soja, tiram outra de milho, e novamente, mais soja. O filme que poucos assistiram no início do ano, com a decretação da emergência fitossanitária na Bahia, eu acompanhei em 2006, no Mato Grosso.

Ritmo delirante
Estava em Primavera do Leste, outra central do agronegócio, onde na época funcionava cerca de 150 equipamentos de irrigação,quando ocorreu um surto da ferrugem asiática, um fungo que ataca a soja. Um fungo se expande com calor e umidade concentrada. Os plantadores de soja reclamavam do atraso na liberação de verbas para comprar fungicidas, falavam da inoperância do governo federal. Mas não informavam que plantavam direto o ano inteiro. O que aconteceu? O governo estadual decretou o chamado vazio sanitário, quando fica proibido por três meses o plantio.

E qual a recomendação dos pesquisadores no oeste baiano? Vazio sanitário entre 20 de agosto e 20 de outubro. Então esta é a mentalidade de garimpeiro, que abre o buraco, tira o que tem de ouro, joga a terra contaminada com mercúrio ou cianeto no rio. É a mesma do agronegócio. Tudo tem que ser rápido, faturar o mais rápido possível, sem pensar em consequência. Depois embarca a produção em caminhões, que sairão percorrendo três mil quilômetros em direção a Santos ou Paranaguá, para embarcar a estrela do agronegócio em navios que entregarão na China. Duas mil carretas são necessárias para encher o estoque de um navio.

A outra recomendação que escuto desde a década de 1970, quando trabalhava na Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (COOJORNAL), que editava a revista Agricultura e Cooperativismo, na época órgão da Federação das Cooperativas de Trigo e Soja (FECOTRIGO), é o controle biológico, utilizando os inimigos naturais das lagartas, no caso, uma vespa chamada Trichogramma, que coloca os ovos junto com os ovos da lagarta. O Baculovirus também é dessa época. E o Bacilo Thurigiensis os americanos descobriram na década de 1960, é citado no livro da Rachel Carson sobre venenos.

Ataque aumentou com transgênico
Aqui entra outro componente da rede. Uma sequência do DNA do bacilo foi usada pela Monsanto na semente transgênica de milho, por isso mesmo, tem o nome de semente BT.

Alguns pesquisadores e produtores do oeste baiano chegaram a declarar que a incidência da lagarta Helicoverpa zea, conhecida como lagarta do milho,aumentou com a proliferação do milho BT. Depois invadiu as lavouras de soja e algodão, comendo folhas, grãos, e o cartucho(fibra) do algodão. As discussões foram de todo tipo. Porque existe outra lagarta Helicoverpa Armigera que ataca o algodão. Já fez isso na Austrália na década de 1990. Quer dizer, o primeiro vacilo dos membros do agronegócio foi não identificar o tipo da lagarta, o segundo foi duplicar as aplicações de inseticida de oito para quinze, no caso baiano, daí a contagem do prejuízo. O custo de aplicação passou de R$100 para R$200. No caso do algodão de R$800 para R$1.600. Mais a perda da produtividade.

Mas nenhum inseticida controlava a lagarta. Somente os importados, agora liberados. Então só para recapitular: primeiro plantio o ano inteiro, segundo não fazem monitoramento nas lavouras, para investigar a infestação, terceiro antes de identificar o problema, duplicam o uso de inseticida. E agora teremos o quarto. Por uma coincidência a Monsanto está lançando a sua mais nova produção transgênica, a semente Intacta RR2. A planta transgênica vai secretar duas toxinas, ao invés de uma, além de continuar imune ao herbicida Glifosato, também chamado popularmente entre agricultores familiares de “mata-mato”. Mais o ganho de produtividade. Na prática combateria as duas lagartas Helicoverpa.

No caso da soja transgênica Roundup, a RR, o cliente da Monsanto tinha que pagar R$22 por hectare como royalties. A Intacta custará R$115 por hectare. Porém, tem um complicador. Os associados da Aprosoja, que é uma entidade poderosa no MT, entraram na justiça federal e estadual, em três estados – RJ, RS e MT. Para não pagar royalties da semente RR desde 2010, quando consideram que encerrou o prazo de validade da patente. Ocorre que a Mosanto não tem a mesma visão, e para ela o prazo só termina em 2014. Os associados da Aprosoja e outros que entraram individualmente ganharam no Rio, no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Também em Porto Alegre, um juiz da 15ª Vara Cível decretou que a Monsanto tem que devolver os royalties desde 2003. No MT um juiz deu direito dos sojicultores depositarem em juízo, até definir uma sentença definitiva. Só no MT a causa envolve R$300 milhões, salientando que o estado é o maior produtor de soja do país, e este ano deverá colher mais de 18 milhões de toneladas – das 80 milhões esperadas. Contando os dois anos que falta até 2014, a conta sobe para R$1,7 bilhão. Se ganharem, eles recebem em dobro.

Armistício mui amigo
E qual a posição da Mosanto, que há 20 anos lançou a semente transgênica, fatura R$2,8 bilhões no país e tem como sonho de consumo ganhar o mercado chinês de produção de milho com seus 30 milhões de hectares? Num primeiro momento fechou um acordo com a CNA e outras 10 federações patronais com o seguinte objetivo: o cliente interessado em comprar a semente transgênica Intacta tinha que assinar um documento que não entraria na justiça ou abriria mão do processo, para cobrar os royalties da soja Roundup. Os dirigentes da Aprosoja subiram nas paredes, qualificaram de lesivo, imoral e ilegal o tal “armistício” como a múlti definia o acordo.

Sem esquecer que as ligações dessas entidades com as grandes detentoras de marcas e insumos do agronegócio são de total integração. Sem contar que a Monsanto, este ano, investirá R$8,3 milhões em pesquisas de biotecnologia da Embrapa.

A última informação: a Aprosoja entrou com um pedido na justiça do Mato Grosso para que a Monsanto apresente a patente da soja Intacta. Quanto às lagartas, tanto das espécies Helicoverpa, como de outras, ou de outros gêneros, todos integrantes do grupo dos insetos, continuarão sua missão de controlar uma planta que não para de crescer no país e no mundo, o que faz parte do sistema natural. Afinal, são cerca de um milhão de espécies catalogadas de insetos, mas os pesquisadores estimam que esse número possa ultrapassar cinco milhões.

As plantas transgênicas já estão ocupando 170 milhões de hectares no planeta. Embora o crescimento no ano passado tenha estagnado. Só cresceu no Brasil para 36 milhões de hectares. Informações de lobistas dos transgênicos. Nos Estados Unidos, onde 95% das lavouras de milho e soja são transgênicas, o crescimento foi de 1%, com 69,6 milhões de hectares e cerca de uma dezena de plantas resistentes ao glifosato – chamadas ervas daninhas. Na China são quatro milhões de hectares ocupados e na Índia 10 milhões. Somente 28 países no mundo plantam transgênicos, sendo que Estados Unidos, Brasil e Argentina ocupam 75% da área.

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