Crueza, riso e lirismo em Amnésis

20/05/2013

dineyaraujo3

Texto: Clodoaldo Lôbo
Foto: Diney Araújo

Sons, ruídos de vozes, falas esparsas, entoações como de ladainhas, inicialmente.
Aos poucos, as vozes vão ganhando vida e nitidez. Vê-se ao fundo telão com imagens do Centro Histórico de Salvador.
Como se estivéssemos numa peça inspirada por Grotowski, que preconizava um teatro pobre, apenas três atores no palco organicamente e a luz sutilmente poderosa de Irma Vidal incidindo sobre eles.
Aos poucos, as falas vão se interpenetrando, embora continuem parecendo solilóquios.
Sentimo-nos dentro de vidas postas à margem, causos de mulheres entregues pelos pais a homens estranhos, dentre outras tramas que se engendram. Ainda adolescentes esses seres são obrigados a pagar caro o preço da existência colocada à margem.
Uma crítica à dura opressão às mulheres e às classes menos favorecidas, geralmente ex-escravos.
São ritos e rituais ancestrais celebrando a vida contra o jugo dominante e a alienação imposta. Crueza que se revela nessa inóspita realidade.
A diretora Meran Vargens e os atores que partilharam a criação do texto nos fazem ingressar na crueza do real, colocado de uma forma liturgicamente pagã. Com nuances antropológicas ela dá um travelling nos icônicos personagens.
Daniel Calibam revela-se um excelente ator para quem não o conhecia e surpreende pelo magnetismo e maleabilidade corporal.
A flexibilidade e riqueza corporal, aliás, são comuns aos três atores em cena.
Danilo Cairo é um ator de carisma artaudiano, diáfano e etéreo.
João Guisande celebra também a vida que regurgita do seu personagem. Mas compõe um tipo mais introspectivo, numa linha meio brechtiana.
O halo que envolve os três tem a magnanimidade autêntica dos simples, como queria o filósofo Heidegger. E no espetáculo dá para se visualizar uma Bahia perene dos sobrados, casarões, orixás e santos pairando sobre um real desfigurado por shoppings e fast foods.

Texto publicado em A Tarde, Caderno 2+, página 3, de 20/05/2013.

Amnésis está em cartaz às quintas e sextas, na Sala do Coro do TCA, às 20 horas, até o dia 31 de maio de 2013. Ingresso R$ 20,00 (inteira).

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