“Raça” revela dificuldades para mudar o Brasil

28/05/2013

por Josias Pires

Três negros, três trajetórias, três histórias inacabadas: um senador, um cantor-empresário de comunicação e uma quilombola constituem o trio de personagens acompanhados pelas câmeras do filme documentário “Raça”, dirigido por Joel Zito Araújo e Megan Myla, lançado em todo o país na semana passada. Realizando um procedimento típico do cinema direto americano, aquele em que a câmara observa o desenrolar de conflitos, “Raça” joga lenha na fogueira de um debate urgente e ajuda a provocar e atiçar reflexão indispensável sobre o Brasil atual: a inconclusa liberdade dos brasileiros de origem africana, cuja escravidão oficial teve fim com a promulgação da Lei Áurea mas que foram, porém, mantidos em condições de vida indignas e degradadas por todo o século seguinte.

O Estado brasileiro livrou-se, naquele fatídico 1888, da condição de escravista, porém a mentalidade escravocrata e as condições materiais da escravidão continuaram praticamente inalteradas. O fim legal da escravidão, desacompanhada de reformas sociais, dentre elas a reforma agrária, que pudessem garantir melhores condições de vida e terra para o trabalho dos novos homens livres, tornou a Lei Áurea simulacro de uma medida que pudesse ser, de fato, libertadora.

“Raça” de Joel Zito e Megan Myla mostra como permanecem vivos tantos sinais do Brasil escravista, último país do mundo a abolir legalmente a escravidão, e que ainda hoje é incapaz de superar, de uma vez por todas, o fosso social, político, econômico e cultural, fosso profundo cavado durante os quase quatro séculos de latifúndio e escravismo que fizeram deste país um dos mais desiguais do planeta.

Os três personagens que estruturam o filme, o senador gaúcho petista Paulo Paim; o paulista cantor Netinho de Paula; e a quilombola de Linharinho (ES) Miúda dos Santos sintetizam elementos marcantes da nossa tragédia política e social. Durante cinco anos as equipes de filmagem acompanharam as desventuras desses três personagens.

Paulo Paim atravessa o filme em incessantes articulações visando aprovar, no Congresso Nacional, o Estatuto da Igualdade Racial, uma espécie de consolidação de leis que pudesse garantir direitos jamais reconhecidos, de fato, aos descendentes dos africanos. Inúmeras foram as dificuldades interpostas pelas forças conservadoras para a aprovação do projeto, cuja proposta inicial foi desfigurada e transformada numa peça de valor mais simbólico do que efetivo, que desagradou amplos setores dos movimentos negros do país.

As articulações de bastidores que levaram à aprovação do Estatuto – ainda que um Estatuto frágil, débil – são reveladoras do modus operandi de um parlamento, àquela altura, mais precisamente de um Senado Federal dominado, liderado, comandado pelo então bajulado senador Demóstenes Torres, do DEM, partido que tentou (e continua tentando) no Congresso e no Supremo Tribunal Federal barrar a instituição das cotas raciais e suprimir o direito à terra dos quilombolas. Os debates no parlamento registrados pelo filme mostram como as elites conservadoras continuam fazendo de conta que a escravidão foi um paraíso e que o racismo seria, apenas, um discurso de ressentidos.

Como revelou Paulo Paim num flagrante captado pelas câmeras de Joel Zito e Mega Mylan, as votações do senado só ocorriam, naquela altura, se Demóstenes Torres quisesse. A ameaça de ausência de Torres à sessão da Casa Alta no dia da votação do Estatuto da Igualde representaria a impossibilidade de votar, pois os parlamentares não dariam o quórum necessário à sessão. Paim revela que nada era votado ou aprovado sem o aceite do senador Torres, então presidente da poderosa Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o mesmo senador que se revelou, posteriormente, para toda a nação como uma pústula integrante da máfia comandada por Carlos Cachoeira.

A saga de outro personagem do filme, o cantor de pagode romântico Netinho de Paula, é igualmente reveladora, por um outro ângulo, das dificuldades enfrentadas pelos negros no campo dos meios de comunicação, mais especificamente na televisão brasileira. Durante o período de realização do documentário “Raça” Netinho de Paula estava tentando viabilizar a sua TV da Gente, emissora voltada para a apresentação e debate de questões do interesse da maioria negra do país. Tentativa frustrada pela total inexperiência do cantor no mundo da comunicação televisiva, pela dificuldade de recursos financeiros e pela fragilidade mesma da programação.

Apesar do apoio emocionado da atriz e cantora Zezé Mota à iniciativa de Netinho de Paula – ela pareceu acreditar piamente que a TV da Gente seria um divisor de água na questão do tratamento do negro e da questão negra na tevê brasileira -, o fato é que desde a marca da emissora até os formatos de programas percebemos uma evidente submissão ao modelo global de tevê feita no Brasil. Chega a ser patético as explicações de uma apresentadora (negra) que faz um programa à la Ana Maria Braga explicando que uma espécie de panqueca que tentou fazer na cozinha (comandada por uma cozinheira branca) não deu certo porque a frigideira estava fria …

As imagens da campanha de Netinho para sua candidatura ao senado – o Candidato da Gente – traz-nos a sensação de que o projeto de comunicação TV da Gente parece muito mais a construção de um instrumento de afirmação pessoal do que realmente o projeto de uma tevê alternativa vinculada aos movimentos negros.

É a personagem quilombola Miúda dos Santos quem vai trazer à cena os interesses profundos e coletivos dos descendentes de africanos abandonados pelo Estado pós-escravista. A comunidade de Linharinho (ES) vive às voltas com um inimigo muito poderoso, a Aracruz Celulose, que ocupou milhares de milhares de hectares de terras no norte do Espírito Santo e Sul da Bahia para plantar eucaliptos e alimentar a indústria de celulose.

As famílias do quilombo estão confinadas nas suas terras pelo gigantismo do plantio de eucaliptos da Aracruz, onde foram produzidas as imagens mais marcantes do filme. Em meio à floresta artificial, a pequena comunidade resiste com todas as suas frágeis forças. A Aracruz quer a todo custo expulsar aqueles pobres mortais do seu exíguo território. Contra uma banca de advogados dos mais caros do país, a comunidade quilombola tem como aliado um estudante de direito e resistem como podem, lançando mão dos seus parcos recursos, notadamente da solidariedade e da reelaboração do sentimento religioso.

Enquanto o senador e o neo-empresário de comunicação perseguem as suas carreiras solo, o coletivo de quilombolas constrói um pequeno oratório para Santa Bárbara, reúne suas lideranças para traçar estratégias para garantir a posse da terra, vai a Brasília tentar pressionar políticos e juízes para votarem em favor dos seus direitos, bloqueiam uma rodovia para chamar a atenção da sociedade para os seus problemas e, por fim, fazem replantio de árvores nativos em áreas devastadas pela Aracruz. Uma luta de pequenos guerreiros contra vários dragões da maldade.

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