20 de Brumário: pra onde vai esse barco?

21/06/2013

Por Paulo Costa Lima

Se de um lado o coração se enche de esperança com todos os jovens que recriaram a sacralidade do coletivo Brasil, por outro, paira uma incômoda sensação de manipulação midiática e usurpação da causa.

Sonhar e sonhar e sonhar, dizia Gonzaguinha, mas com os pés no chão e boas propostas. Pois então, tudo depende do que vai acontecer nesse tempo de reviramento entre a manifestação de 200 pessoas na Cinelândia, e os milhões que a partir de hoje lotam as praças de todo o País?

Estive na manifestação em Salvador, e vibrei com a mobilização. Vi muitos cartazes com frases bonitas, e cada jovem com o seu,a grande maioria em espírito de paz e de participação. Mas, pra onde vai esse barco?

“É assim mesmo”, diz Manuel Castells na televisão: um movimento que não tem objeto definido, o objeto será definido a posteriori. Estranhos e inusitados caminhos dessa época sem gravidade!

Como evitar ser o porta-voz dos interesses nada sutis daquela elite de sempre, que nunca optou por um país de cidadãos, sempre preferiu modelos que garantissem a desigualdade, e agora faz de conta que é turista…? Fazer papel de massa de manobra e ainda achar que está em plena Revolução Francesa!!! Abrir os olhos!

Hoje os líderes iniciais do movimento em São Paulo perceberam esse jogo de apropriação, sairam da manifestação criticando a direitização dos “protestos” — só que, admirável moçada, não seria melhor ter avaliado antes essa possibilidade tão concreta?

Porque, por mais que as redes sociais sejam ferramentas incríveis de mobilização e de catalisação dos movimentos, vivemos num País onde o poder de interpretação através da mídia, o poder de atribuir significados a algo que ainda não os tem totalmente definidos, o poder de ler as brumas, está na mão de um pequeno grupo de pessoas. Que, aliás, sempre manisfestaram suas preferências políticas de forma escancarada — por que não fariam isso nesse momento de uma oportunidade inesperada?

E a verdade é que o governo nada fez até agora para discutir e transformar democraticamente essa fragilidade permanente. Erro grave.

Quando Drummond disse “o governo ideal termina no dia da posse”, estava falando de tantas coisas, entre elas, a certeza de que governar é errar, e certamente exige alternância. A lista de erros vai crescendo. Mas a lista de acertos também é polpuda. Basta conferir os números, principalmente o nível de emprego, mas também o investimento em universidades…

Precisamos da crítica, da utopia e da alternância sim, mas não como arremedo, como desrespeito à vontade da maioria. E, paradoxo vivo: até mesmo o que se acerta depende tantas vezes de atitudes pouco recomendáveis (geralmente apelidadas de coalisões), inevitáveis dizem os políticos, diz o sistema.

Mas, não tá na hora de mudar o sistema? Vamos propor uma redução de 20% dos gastos com todos os políticos do País? Seria uma boa resposta á eficácia do sistema. Vamos criar novos mecanismos de participação popular, do tipo Ficha Limpa?

O fato é que o Brasil mudou depois desses dias — e a insuficiência do sistema político, seu alto custo e baixa eficácia, parece ser a bola da vez. Por falar em bola, urge colocar soluções no horizonte, e ocupar o espaço propositivo, por que, como bem sabemos: quem não faz gols, toma.

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