OCEANIA

14/07/2013

asia-oceania

Carlos Drummond de Andrade

Amo burra, burramente
certa menina enfezada
para lá dos mares do sul.
Ela vem por sobre as ondas
enfeitiçar minha vida,
atrapalhar minha mesa,
dizer que espere … esperarei.

Garota das ilhas Fidji,
ela canta a cantiga morna
do pescador que foi pescado
por um grande peixe vermelho,
ela sobe no coqueiro,
ela sacode o coco
na minha cabeça,
essa menina enjoada …

Ora, eu amo essa menina
que vem dentro de um romance,
áspera, nítida, úmida,
brincar no meu pensamento,
espantar esse mosquito
que pousou no meu papel,
acender esse foguinho
através da Oceania.

E eu lhe pergunto: Filhinha,
para lá da Oceania
decerto que há outras meninas
e outros coqueiros, decerto!
Por que você não me conta?
Eu queria tanto saber.

Ela diz que fique quieto,
que depois da Oceania
o mundo acaba … e que a praia
é só areia e silêncio.
O mundo acabou para nós!
Quebra coco, menina,
dança bem espalhada, menina,
canta bem machucado, menina,
com tua voz de Oceania.

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