Teia de Cordéis portugueses e brasileiros

04/04/2014

Teia Cordeis 1

Por Josias Pires

O I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros, realizado na Bahia em 1955, teve à frente o poeta alagoano-baiano Rodolfo Coelho Cavalcante e contou com a presença de cantadores de todo o país, inclusive do pioneiro editor João Martins de Athayde. Conta a folclorista Hidelgardes Vianna que durante o tempo que ficou na Cidade da Bahia, hospedado nas imediações da Ladeira de São Bento, o pernambucano teve a companhia assídua e persistente de Cuíca de Santo Amaro, que outrora havia vendido nas ruas e feiras livrinhos de histórias publicados por Athayde.

Pernambuco, Paraíba, Ceará foram estados que saíram na frente na edição e publicação de folhetos, dando continuidade à forte tradição oral sustentada por trovadores e violeiros da mais alta capacidade poética. Na Bahia, Rodolfo Coelho Cavalcante e Cuíca de Santo Amaro, sem nenhuma dúvida os dois grandes trovadores populares do século XX no estado, foram também os primeiros a produzirem localmente em grande quantidade (para os padrões da atividade e da época), nas décadas de 1940 e 1950, sobretudo, quando passaram a abastecer o mercado local com enorme variedade de títulos semanais, abrindo franca concorrência com os folhetos pernambucanos.

Teia Cordeis 2                                                                   Teia Cordeis 3

Assim como sempre alimentou o/ foi alimentado pelo samba do Rio de Janeiro, mantendo ao longo de séculos um fluxo e refluxo com aquele estado, a Bahia mantém, ainda que sem a mesma evidência para o caso do samba no Rio de janeiro, mantém um circuito de alguma espécie com a literatura popular de Recife e outros endereços do Nordeste – algo inevitável, obviamente. Traçar os contornos de tal circuito, porém, é tarefa ainda para ser executada, até onde sei.

Enquanto esta história aguarda a sua escrita, vamos tomando conhecimento de iniciativa relevante no campo do conhecimento da literatura popular brasileira. O livro catálogo “Teia de Cordéis”, de Maria Alice Amorim e Arnaldo Saraiva, editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (2013) contém as imagens de capas e versos de mais de 500 folhetos de literatura popular que ficaram em exposição, em 2011/2012, no Museu de Arte Popular, da Prefeitura de Recife – sim, lá há um Museu de Arte Popular que abrigou a grandiosa exposição com folhetos portugueses e brasileiros. Foram 254 folhetos portugueses da coleção de Arnaldo Saraiva e 258 brasileiros da coleção de Maria Alice Amorim. Folheto do segundo ano do século XVII (1602) aos livrinhos do século XX.

Arnaldo Saraiva apresenta-nos a seguinte lista temáticas dos folhetos: poesia, narrativa, teatro, crítica, autos, dramas, tragédias, farsas, entremezes, monólogos, desafios, comédias, sátiras, invectivas, paródias, anedotas, cartas, crônicas, biografias, histórias, contos, moralidades, dissertações, elogios, exemplos, testamentos, orações, oráculos, hinos, canções, elegias, fados, décimas, odes, coplas, aventuras, paixões, sonhos, viagens, suspiros, sucessos, confissões, velhos e novos príncipes, bandidos, soldados, namorados, clérigos, criados, deputados, fanfarrões, fantasmas, Adão e Eva, São João e S. Pedro, Paulo e Virgínia, Manoel e Maria, Imperatriz Porcina, Carlos Magno, Bertoldo, A Padeira de Aljubarrora, A donzela Teodora, Magalona, João de Calais, Bocage, José do Telhado, Deus e o Diabo.

É uma lista, evidentemente, incompleta dado a riqueza de títulos e temas da exposição, que publica alguns folhetos ligados ao ciclo das navegações, como o de João Calais e o poema antológico A Triste Vida de Um Marujo que ao lado do romance da Nau Catarineta foram algumas das matrizes centrais do folguedo que ficou conhecido como Marujadas, Cheganças de Marujos, Fandangos no Nordeste brasileiro. Da coleção de Maria Alice saem autores e temas clássicos de Portugal e do Brasil ao lado da poesia de novos autores.

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Os dois curadores publicam textos de apresentação muito pertinentes. Publico abaixo os três primeiros parágrafos do texto De Portugal e do Brasil: o próximo, o distante, voz própria, de Maria Alice Amorim. Que comparece também com um ensaio “Existe um novo cordel? Imaginário, tradição, cibercultura”.

“O novelo de Ariadne, no labirinto vai unindo ramagens, cosendo rupturas, redesenhando começos, bifurcações. É Aracne que de si própria extrai os fios com que tece a precisão e a beleza, desafios à deusa Atenas. Nem pista sem saída, nem rumo estéril, os muitos fios que compõem a paisagem tradicional da literatura popular brasileira, conhecida sobretudo pelos matizes da poética de violeiros repentistas e de cordelistas, deixam vislumbrar caminhos herdados, mudanças de rota, voz própria. A partir do instante inaugural, no século XVI, entre terras lusas e brasileiras cordões umbilicais engendravam heróis, mitos emblemas. Inicialmente guiada por prévios roteiros de criação, exteriores à cultura local, a literatura de cordel se vale da astúcia de Ariadne e do primor artístico de Aracne, abraçando o desafio de não se enredar na própria teia, não se perder em labirintos, nem se deixar devorar. Assume voz própria, conquista autonomia criadora no continuuum das tramas seculares de engenhosa narrativa poética, constituindo-se patrimônio imaterial do Nordeste brasileiro e, de maneira exuberante, no Estado de Pernambuco.

Recife sempre se destacou, desde o início do século XX, na invenção, edição e difusão do folheto popular. Foi considerando este relevante dado histórico e, igualmente, o volume e a importância da produção de/sobre o folheto popular brasileiro, disseminado país afora ao longo de mais de um século e a partir de matrizes poéticas populares medievais de procedência europeia, que surgiu a pertinente iniciativa de propor à pauta do Museu de Arte Popular (MAP), da Prefeitura da Cidade do Recife, uma exposição que pudesse abranger a produção editorial portuguesa, a partir mesmo da datação dos mais antigos exemplares de que se tem notícia em acervos institucionais e particulares – o século XVIII – e que contemplasse, ainda, a produção editorial brasileira estabelecida como produção cultural do Brasil, inaugurada com autores considerados pioneiros na consolidação da tradicional poética cordelística no país, a exemplo de Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista, Silvino Pirauá de Lima, João Martins de Athayde.

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Assim, proposta aceita, aconteceu no MAP, entre março de 2011 e maio de 2012, a exposição Teia de Cordéis – desdobrada em suas expografias: Cordéis Portugueses/Coleção Arnaldo Saraiva, Cordéis Brasileiros/Coleção Maria Alice Amorim – sob a curadoria de ambos os colecionadores no tocante à exibição dos portugueses e somente sob a de Maria Alice Amorim quanto aos brasileiros. O presente catálogo trata, pois, do registro dessa atividade museológica que, na primeira parte, se caracterizou por ter sido pioneira, em território nacional, quanto ao expressivo volume de literatura de cordel d’além mar aqui jamais antes exibido numa mesma ocasião e espaço, abarcando edições do período histórico em que foi prolífica tal produção editorial: os séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Esse primeiro momento permitiu, portanto, que o público pudesse conferir no MAP, durante quase três meses, documentos raros, inclusive um folheto português de 1602, então o mais antigo da coleção de Arnaldo Saraiva”.

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