Chacina dos 12 do Cabula: a PM matou gente desarmada?

10/02/2015

A versão da polícia de que a chacina do Cabula teria sido inevitável, pois os suspeitos estavam armados, iriam assaltar uma agencia bancaria e receberam os agentes da lei à bala está sendo desmentida por testemunhas que declararam à imprensa, durante o enterro de seis dos assassinados, que os rapazes estavam desarmados.Os fatos estão sendo apurados pelo Ministério Público, a Anistia Internacional cobrou do governo apuração circunstanciada, está havendo mobilização de organizações diversas que promovem nesta quarta-feira (11/02) um encontro de familiares, movimentos sociais e pessoas que estão sensibilizadas com o caso e que farão ato no local onde os jovens foram mortos.

– “Serão deixadas 13 coroas de flores no campo onde aconteceram as mortes. Vai ser um cortejo fúnebre, diz, para o site Correio Nagô, o diretor do Mídia Periférica, Enderson Araújo. O encontro que sairá amanhã (11/02), da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Cabula, está marcado para as 14 horas.

Texto da professora de um dos jovens executados, publicado em Correio Nagô.

Por Nida Amado

Estava comemorando com um aluno seu ingresso no curso de licenciatura em Teatro na Universidade Federal da Bahia. Um sentimento de orgulho despresunçoso e um pouco vaidoso preenchia meu coração. Entre os 14 e 17 anos de idade fui educadora de teatro da molecada do meu bairro, ainda estava em formação, mas eu insistia em acreditar que tinha algo a ensinar sobre o teatro da vida. Eu sabia que não era tão boa atriz assim, gostava mesmo era de escrever roteiros teatrais sobre infância, drogas, violência, gravidez na adolescência etc.

Voltei para casa orgulhosa ao ver se frutificar, em meu aluno Lúcio, parte das minhas ideias e sonhos da adolescência. Estava pensando sobre a importância dos professores na vida dos alunos, quando me deparei com a foto de outro aluno do teatro estampada no jornal totalizando a somatória dos 13 jovens negros executados no bairro do Cabula- Salvador, baixei a bola e comecei a pensar na insignificância de ser educadora dentro desse sistema genocida, racista e interruptor de sonhos. É um tanto desolador ver dois alunos talentosos com trajetórias distintas; um é o brilhante ator de filme Trampolim do Forte, tornou-se educador e acaba de entrar para a universidade e o outro foi executado pela polícia.

E essa gente que gosta do discurso da meritocracia vai arbitrariamente dizer que um foi esforçado e outro não; um escolheu entrar para a universidade e o outro ser executado. É importante lembrar que não está em debate se os jovens executados eram infratores ou não, a questão é que o Estado os exterminou ilegalmente e feriu seus direitos garantidos na constituição. Cabe ainda se perguntar o que o Estado tem feito de substancial por esses jovens? Cadê a política pública para a juventude baiana?

Eu e minha amiga Patricia Silva, também formadora do jovem executado, vimos de perto no olhar e na postura desse menino sonhos e alegria, fazendo arte e lutando contra a lógica da criminalidade, mas é quase enlouquecedor ir de encontro com todas as armadilhas projetadas, aqui é terra do ‘salve-se quem puder’, isto é, salva-se quem tem família com um mínimo de estrutura educacional e psicológica, quem estuda em boas escolas, tem espaços de lazer, emprego e mora fora do perímetro da desassistência.

Esses lombrosianos não sabem o que é viver na favela, é muito bom ser turista, soteropolitano branco e rico para curtir as reformas no Farol da Barra, pular carnaval e ficar da janela dizendo que “bandido bom é bandido morto” aqui na favela não tem quadra poliesportiva, não tem lazer, as escolas de educação infantil e fundamental são péssimas e mesmo que você queira estudar a cultura organizacional do bairro dificulta. Aqui na favela, como querem essa gente do tipo Governador Rui Costa, que gosta de metáforas, não matamos leões para vencer desafios, aqui somos os próprios leões querendo sobreviver diante de tantas dificuldades.

Eu evitei ler notícias sobre o caso da chacina no Cabula, sei lá… talvez uma estratégia inconsciente de evitar dores psicológicas, mas já estava sentido-me um tanto alienada e irresponsável por não tomar partido diante do debate iniciado nas redes sociais, uma hora tive que ler as notícias e fui desapontada ao ver a foto do meu aluno estampada naquela capa de jornal, aí fui tomada pela minha pequenez e insignificância enquanto educadora e pesquisadora diante dessa engenharia que é o racismo. Para quê tudo isso? Se a gente faz e o sistema desfaz? Quando a gente começa a acreditar que é possível eles nos mostram que ainda temos muito pelo que lutar.

Definitivamente é impossível pensar a formação de professores para as relações raciais e desconsiderar o projeto de limpeza racial encampado pelo Estado.

Meu aluno executado pela polícia foi um desses da foto, agora quero que me digam qual deles é o bandido altamente perigoso que merece morrer? Estou vendo crianças talentosas e sonhadoras, porém desassistidas, as quais têm, todos os dias, suas vidas ceifadas por esse Estado genocida e racista.

Correio Nagô -10/02 Outra versão: rapazes mortos pelos policiais estavam desarmados http://correionago.com.br/portal/a-outra-versao-rapazes-mortos-pelos-policiais-estavam-desarmados/

Geledés – 09/02 Testemunha diz que vítimas de chacina do Cabula (BA) estavam rendidas http://www.geledes.org.br/testemunha-diz-que-vitimas-da-chacina-cabula-ba-estavam-rendidas/#axzz3RNW47rBZ

Carta Capital – 09/02 Em três dias PM de Salvador matou 15 jovens negros http://www.cartacapital.com.br/sociedade/em-tres-dias-pm-de-salvador-matou-15-jovens-negros-5479.html

Correio da Bahia – 08/02 Famílias alegam inocência nos mortos do Cabula: eles protegiam a gente, temos medo é da polícia. http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/dois-sao-mortos-em-novo-confronto-com-a-rondesp-familias-alegam-inocencia-de-mortos-no-cabula/?cHash=5c7fa7353f76f5e3b96742f23bb0878a

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