Morre o Sambador Manezin de Izaias

10/02/2015
Foto semana Cultural Riachão - Evandro Matos

Foto semana Cultural Riachão – Evandro Matos

Por Josias Pires

Acabei de receber a notícia por meio de mensagem eletrônica encaminhada pelo jornalista Evandro Matos. A morte colheu o sambador na noite de segunda-feira passada (09), em sua residência, na avenida J.J. Seabra, Riachão do Jacuípe, a cerca de 200 Km de Salvador.

Afamado sambador de Riachão do Jacuípe, Manezin de Izaias é co-autor de um dos grandes sucessos do Carnaval da Bahia, a música “Quixabeira”, adaptada por Carlinhos Brown e gravada pelo próprio Brown e mais Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, banda Cheiro de Amor e muitos outros:

https://www.youtube.com/watch?v=3QjsedRXg9Q

A canção “Quixabeira”, na verdade, é uma colagem que Carlinhos Brown fez de três músicas gravadas originalmente como de domínio público no long-play “Da Quixabeira Pro Berço do Rio” , produzido por Bernard von der Weid, em 1992, reunindo 40 cantos de trabalho, chulas, batuques e rodas de quatro município do sertão da Bahia (Feira de Santana, Serrinha, Araci e Valente).       “Quixabeira” reúne a cantiga-de-roda Amor de Longe (Amor de longe, benzinho / é favor não me querer, benzinho / dinheiro eu não tenho, benzinho / mas carinho sei fazer até demais ), coletada / registrada na comunidade de Lagoa da Camisa, em Feira de Santana; Alô, meu Santo Amaro, cunhado de samba santo-amarense, da comunidade de Matinha, Feira de Santana; e a chula Vinha de Viagem (Vinha de viagem passei no barreiro / avisa aos meus companheiros / sou eu Manezim de Izaías. / Na ida levei tristeza / na volta trouxe alegria / Passei na Quixabeira / Mané me deu uma carreira / que até hoje eu corria. / Tu não faz como passarinho / que fez o ninho e avooou / e eu fiquei sozinho / sem seu carinho /seu seu amor).

A cantiga de roda e o samba são de autores desconhecidos. A chula de Manezin de Izaías correu mundo nas veredas do sertão, ficando mais famosa do que o próprio Manezin; criada em Riachão de Jacuípe ela foi encontrada por Bernard von der Weid em Valente, a mais de 100 km de Riachão, onde ninguém sabia quem era exatamente aquele Manezin que enfiou seu próprio nome na letra da música, assinando-a para sempre. É bom dizer que em vários sambas que escutei de Manezin seu nome integra a letra.

Filho de cantador de bandeira de batalhão, o mais especializado e reconhecido dos sambadores daquelas terras do samba-de-quadra, que é como chamam o samba duro que fazem nas roças, terreiros e botecos, Manezin de Izaías foi ele mesmo cantador de bandeira de batalhão e sambador respeitado, amado e temido – pois o samba-de-quadra muitas vezes é feito com improvisação, versos tirados na hora, com o sabor das disputas de cantorias de viola.

Conheci Manezin de Izaías em 2002, quando trabalhava na TVE-Bahia, fazendo a série Bahia Singular e Plural e fui a Riachão do Jacuípe com uma equipe da TV para cobrir a Semana Cultural, organizada pelo jornalista Evandro Matos. Evandro Matos levou Manezin e seu Samba de Roda do Mocó, por muitos anos, para apresentações do seu grupo nas semanas culturais organizadas pelo Projeto Cultural Riachão nas décadas de 1990 e 2000.

Manezin não estava na mostra, onde era possível entrar em contato com diversas pessoas e grupos produtores / fazedores/ sabedores da cultura tradicional do lugar, celeiro, fonte inesgotável. Na época Quixabeira fazia enorme sucesso em rádios e tevês e Evandro me levou até a roça de Manezin, há cerca de 15 quilômetros da cidade, onde morava com d. Isaura, mulher baluarte de toda a sua vida.

Manezin já havia sofrido o infarto, estava meio paralisado, a fala um pouco embolada não era mais o sambador em forma. Mesmo assim gravamos uma conversa com ele, gravamos um samba, mas senti que era preciso fazer um documentário sobre Manezin. Havíamos lançado anos antes “Quixabeira – da roça à indústria cultural”, na TVE contando a história da música, mas naquele momento ainda nada sabíamos sobre Manezin.

https://www.youtube.com/watch?v=q_0-WbvYWGI

Com o apoio de Rita Cajaíba e do advogado Rodrigo Moraes logramos êxito na tarefa que nos propusemos de garantir o direito autoral de Manezin, prontamente reconhecida por Carlinhos Brown.

“Os integrantes do Projeto Cultural Riachão lamentam a perda e parabenizam Seu Manezinho pelo rico legado deixado para as novas e futuras gerações”, anotou o agitador cultural Evandro Matos.

A história do sambador foi registrada no documentário “Sou eu Mané de Isaias”, da jornalista jacuipense Laura Ferreira.

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