Alphaville: sofrimento e patologia social

01/01/2017

mal-estar-sofrimento-e-sintoma

Depois dos muros de Alphaville, o mato, é o título do prefácio escrito pelo filósofo Vladimir Safatle para o livro do seu colega uspiano Christian Dunker, Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma, Boitempo Editorial, 2015. Dunker e Safatle são colegas do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP.  No filme Alphaville de Godard é o Alpha 60 quem comanda a sociedade programada e cínica; e só se logra combater a máquina por meio incontrolável, ou seja, pela “indeterminação que vem junto a palavra poética, esse pavor pascaliano diante do silêncio dos espaços infinitos. Ou seja, fora de Alphaville estava toda a experiência possível”. No Brasil,  Alphaville, lembra Safatle, é dos primeiros e dos mais famosos condomínios fechados, que se pretendem lugares seguros, controlados, supostamente protegidos do caos social e comandados pelos síndicos, substitutos de Alpha 60, gestores igualmente ignorantes acerca de poesia e filosofia, porém sabedores de “que o Real em jogo no capital é muito mais importante do que o Real em jogo na realidade”. Para o filósofo, Dunker elevou o condomínio fechado “a paradigma da forma de vida hegemônica no imaginário nacional. Mas os sonhos de condomínio fechado produzem monstros e é sobre eles que este livro discorre”, diz o prefaciador.

O autor propõe que para “compreender as configurações históricas do sofrimento psíquico [devemos] partir da reconstrução prévia dos seus vínculos com a experiência social”. Na tríade mal-estar, sofrimento e sintoma, define-se sofrimento como algo que “é indissociável de uma experiência narrativa que mobiliza sistemas sociais de valores, narrativas e expectativas fracassadas de reconhecimento”, este compreendido no campo da teoria do reconhecimento de Axel Honneth. Compreender as relações entre “sofrimento” e “sistemas sociais” torna-se fundamental para entender como “a experiência nacional e suas formas de sociabilidade fornecem quadros de circulação dos desejos e dos afetos [ e suas relações com as] patologias mentais […] modalidades de sofrimento que impõem restrições a formas almejadas de vida, mas tem também uma profunda dimensão de patologia social”.

Trata-se, portanto, de pesquisa que busca “mostrar como o sofrimento psíquico é a expressão de um social ainda não reconhecido, ou não mais reconhecido […] promessa não cumprida”, desejos insatisfeitos, irrealizados, “história de desejos que lembram a natureza danificada das formas de vida que temos, [que atestam o bom resultado] do bom funcionamento das normas sociais”, que são, na realidade, incapazes de normatizar o não normatizável. Neste diapasão, Dunker recoloca “a psicanálise no interior da história dos embates nacionais a respeito do sentido de sua formação sociocultural”. Ou seja, trata-se de um autor que nos oferta uma interpretação do Brasil e do papel da psicanálise como “crítica da cultura que privilegia os impasses de individualização e socialização” e que dialoga com uma “antropologia filosófica” oriunda de Eduardo Viveiros de Castro. Ao trazer o sofrimento para o centro da pesquisa, Dunker expressa “o impacto da situação social brasileira nas configurações do adoecer psíquico [… e] tal situação social recebe uma espécie de “tipo ideal” na figura do condomínio fechado”. O multinaturalismo do perspectivismo ameríndio é a arma “contra o adoecimento produzido por Alphaville”, na medida em que o perspectivismo ameríndio nos oferta a possibilidade de colocar-nos a cada um no mundo a partir do conhecimento de quem somos enquanto Um e Outro, como se nota na fala do índio Bororo: “Eu sou uma arara”.  (JP)

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