Archive for the 'Nilson Galvão' Category

Um ensaio sobre a cegueira no estacionamento

05/11/2012
Por Nilson Galvão

Fechava os olhos quando era criança, pra experimentar a sensação de não enxergar. Mas era por pouco tempo, por alguns passos, talvez até em função mesmo da dificuldade de lidar com essa limitação tão contrária a nossa ansiedade por olhar pras coisas. Nós, os que enxergam as coisas. Não tinha nem um centésimo do desamparo que vivenciei na exposição “Diálogo na Escuridão”, no estacionamento do Salvador Shopping. Um ambiente de completo breu, onde por uma hora usamos bengala e somos guiados … por guias cegos.

Tatear o mundo é muito diferente, sim. As coisas viram texturas, a gente quase se perde na falta de referências visuais, como se estivesse flutuando, mas acaba se conectando à realidade graças aos outros sentidos. Não saquei direito os cheiros. Me agarrei ao tato. A audição é que foi um espanto: como o ambiente simula uma caminhada por uma cidade real, há muitos sons em volta, o que pra mim virou uma verdadeira cacofonia. Sou dado a labirintices, então acabei ficando meio tonto. É estranho: como se o cérebro associasse ao silêncio a ausência de imagens, e, confrontado com os sons, amplificasse e misturasse tudo.

E não é licença poética: você fica de fato inseguro… na hora de atravessar a rua. A guia disse que essa é a coisa mais difícil pra ela. Tem autonomia, até anda sem bengala dentro do prédio e em casa – e na exposição -, ambientes já mapeados em sua cabeça. Mas pra atravessar a rua precisa pedir ajuda porque os sons confundem. E Salvador não tem sinaleiras com alertas auditivos, não tem calçadas sinalizadas. Ela deu uma dica: ao ajudar um cego a atravessar, jamais vá puxando. Dê o braço pra que ele pouse a mão, assim saberá se você desceu a calçada, se tem uma depressão ou um obstáculo no chão, e irá se ajustando a esses sinais.

Ela se vira, está aprendendo a trabalhar com programas de computador que têm aquele dispositivo de traduzir em audio o que está na tela. No mercado de trabalho, há possibilidade de atuar por exemplo como operadora de call center. Ela parece tranquila e vivaz. O mais genial na exposição é que não faz você ficar com pena dos ‘deficientes visuais’. Só faz você se colocar no lugar deles, entender como é difícil ser cego em terra de ‘eficientes visuais’, mas sobretudo que é absolutamente possível viver assim – ainda mais se a gente se preocupar em não dificultar a vida de quem precisa atravessar as nossas ruas tão cheias de som e fúria…

Anúncios

Um esboço de roteiro da novíssima poesia baiana

29/07/2012

Por Nilson Galvão

Poesia é aquela história: você ainda vai cometer uma! A mais democrática das artes, essa de encadear palavras, e ainda mais acessível quando métrica e rima já não constituem uma exigência: agora não se tem sequer o trabalho de queimar pestanas pra armar sonetos, alexandrinos. É tudo uma zorra, reclamam os narizes torcidos ainda hoje. E dê só uma olhada no pessoal por aí, a se expressar à vontade, ad libitum, ou, como queiram os puristas, ad nauseaum! Continue lendo »

O cirquim do chulé

30/05/2012

Por Nilson Galvão

.
“Com um pouco de sorte você não encontrará o que procura”, lê-se numa página do livreto vendido a R$ 30 na lojinha de souvenirs. Tudo é tão caro, a começar pelo ingresso, e incluindo refrigerantes, sucos, pipocas. Um desavisado passará em branco uns dois anos atrás, na primeira aparição da trupe em Salvador, e não apenas por canguinhagem, mas por um desses preconceitos intelectualóides contra toda a tralha kitsch deste mundo, toda a tola ostentação burguesa essas coisas.

Continue lendo »

O Nirvana da arquibancada

15/05/2012

 

Por Nilson Galvão

Depois de duas noites de sono já dá pra ter algum distanciamento crítico. Pensar naquela zorra toda com a serenidade possível – se existe chance de serenidade quando se trata de futebol. Vi o Brasil ser campeão duas vezes, o Bahia conquistar o campeonato brasileiro pela segunda vez. Mas domingo tinha algo no ar, um jejum de títulos por uma década inteira, e meu filho de 12 sem nunca ter  experimentado essa emoção básica: a de gritar, a plenos pulmões, pela glória do troféu arrebatado. Então foi bacana cantarmos junto com a multidão: “ôôôôô, o campeão voltooooooou”…

Continue lendo »

Ninguém se livra do sertão

08/05/2012

Por Nilson Galvão

Nós, urbanoides, andamos por aí vivendo o “day-dreaming” de filme americano rodado em Nova Iorque, mas de fato ninguém consegue se livrar do sertão. Ninguém mesmo. Pra começar qualquer de nós, na mais urbana das metrópoles, padece de um vão extenso como a Transiberiana, largo como a soma de centenas de campos de futebol: é o sertão metamorfoseado, a incutir sentimentos tão antigos quanto a gana de sobreviver, o temor à fúria divina, a maravilha do sol, da lua e das
estrelas.
Continue lendo »