Cova de anão, por João Aslan

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A lógica terrorista e os trancadores de ruas
02/06/2011


10 de maio de2011. A caminho do trabalho, ouvi pelo rádio a primeira notícia desagradável. Manifestantes estavam bloqueando a passagem de veículos perto da Ceasa e um engarrafamento gigante já estava formado. Não me interessei muito pelo objetivo da turba e torço para que não o tenham alcançado. Aliás, fico automaticamente contra qualquer “movimento”, nobre ou não, que produza transtornos sobre a problemática rotina da cidade, exceto quando se trata de alguma questão relevante de verdade para todos os cidadãos.

Mas a coisa ainda ia piorar naquele dia. Passados alguns minutos, ouvi pela mesma estação: “A polícia e a Transalvador tentaram negociar a liberação de apenas uma pista, mas não tiveram sucesso”. Deduzo que o trânsito só voltou a fluir quando os manifestantes resolveram, por conta própria, encerrar o tal protesto, diante do olhar compreensivo dos agentes públicos.

Antes que os talibãs me atirem pedras, informo: 1) defendo firmemente o direito de livre manifestação, de modo organizado ou não; 2) condeno qualquer ação no sentido de proibir manifestações, independentemente de seus propósitos, ainda que deles discorde. Ponto. Mas enquanto não se revoga o artigo 5º da Constituição Federal, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos, espero que o Estado me proteja sempre que alguém, apoiado na lei do mais forte, “acorda invocado” e decide que não posso passar por determinada rua ou estrada.

Contradição? De jeito nenhum. Conteúdo e forma são substantivos diferentes. Uma coisa é impedir uma manifestação qualquer julgando o mérito de seu propósito. Sou contra. Outra coisa é evitar, independentemente de suas motivações, que manifestantes fechem, por exemplo, a Rótula do Abacaxi e produzam caos no trânsito da cidade inteira. Sou a favor. Em outras palavras, quando se trata de protestar, o tema precisa ser livre, mas a forma não. Posso apoiar de passeata da liga de proteção da formiga roxa até panelaço pelo embalsamamento imediato de Sarney, desde que não se sacrifique a já combalida qualidade de vida dos habitantes de Salvador.

Mas voltemos à hipótese de trancamento da Rótula do Abacaxi. Numa situação assim, se os policiais, como bons baianos, não abrem mão de ser gentis, podem até se aproximar dos líderes do movimento dizendo: “Meus queridos, no meio da rua vocês não vão poder ficar. Subam nos canteiros com suas faixas e liberem a passagem, por gentileza.” E se quiserem usar a linguagem “gerundista”, que em breve, com certeza, estará nos livros do MEC, devem acrescentar: “Dentro de dois minutos nós vamos estar liberando a pista, por bem ou por mal.”

Quando não age assim, com medo de ser tachada de repressora, a autoridade policial permite que a mesma lógica que orienta terroristas se imponha em nossa cidade. Exagero? Talvez. Mas infernizar a vida de populações inteiras e eventualmente matar inocentes, sem remorso, é o que fazem terroristas para chamar nossa atenção, gerar perda de confiança nas instituições e tentar atingir seus objetivos políticos. Pois não se iludam. Nos dias em que o trânsito da cidade entra em colapso por conta de manifestações, pessoas morrem dentro de ambulâncias. Outras morrem em hospitais porque cirurgiões não chegam a tempo de operá-las. Trabalhadores cansados não conseguem voltar pra casa. Arrastões de bandidos se propagam pelas ruas engarrafadas, roubando bolsas, carteiras, relógios e telefones celulares. Quem tem viagem marcada não embarca. Pais deixam seus filhos esperando por horas, em creches ou expostos em portas de escolas. Enfim, a lista de problemas é interminável.

Sou tão cidadão quanto qualquer manifestante. É por isso que cabe ao Estado impedir que a agenda de um grupo se sobreponha à de milhões de outros habitantes de Salvador, como eu. E quando se tratar de um movimento de dezenas de milhares de pessoas? A polícia vai impedir que ocupem as ruas? Não, mas uma manifestação desse porte é rara e organizada com antecedência, permitindo que as pessoas não envolvidas ajustem suas rotinas. O que acontece hoje em Salvador, bem diferente disso, é que qualquer grupo de três ou quatro revoltados tem o poder de decidir amanhã de manhã, em mesa de bar, que vai travar a cidade toda na tarde do mesmo dia, de surpresa, e tudo ficará por isso mesmo.

Para concluir estimulando a polêmica, pergunto: Será que a Europa ocidental vive sob ditadura? Por que às vezes assistimos pela TV a imagens de policiais de países democráticos em confronto com manifestantes? Será que lá alguém é proibido de se manifestar? Segundo Lulu Montaigne, minha amiga, franceses, espanhóis e ingleses, por exemplo, ainda não alcançaram um nível de compreensão tão amplo quanto o nosso sobre o que é democracia. Sinceramente, duvido que essa seja a melhor explicação para o fenômeno.

___________________________________________________________________________________________Cova Cova de Anão – Uma coluna rara e rasa.
João Aslan
é administrador ( jbaslan@uol.com.br )
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Por mim tudo bem, desde que não seja obrigatório
19/05/2011

Há mais ou menos uns 15 anos perguntaram a um médico e político baiano chamado Ursicino Queiroz, hoje falecido, se seria contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A resposta saiu misturando simplicidade e ironia: “Eu não, desde que não seja obrigatório.”
Estou assistindo à divertida polêmica sobre o tal livro didático que “autoriza” a escrita de frases como “Os aluno está na biblioteca” e pensando em Ursicino. Será que escrever assim vai se tornar obrigatório? Um longo texto sem um deslize na concordância poderá, em breve, ser considerado pedante? Quem sabe?
A língua é viva, tudo bem, mas precisa se mexer tanto?

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O humorista Bussunda foi o primeiro a perceber e registrar o nascimento, nas praias cariocas, de uma língua própria dos surfistas. Sua principal característica é dispensar o uso de consoantes. Exemplo: um grupo está contemplando o mar e um amigo chega agitado, falando alto. O que se diz? “Ê, ó o auê aí ô!”. Tradução: Você, que chegou fazendo confusão (ou “auê”), está nos incomodando!
Minha preocupação é apenas prática. No limite, muita liberalidade com a gramática pode tornar textos ininteligíveis.

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Lulu Montaigne, minha amiga, pegou pressão. Já disse que se escrever algo errado e aparecer um porreta qualquer apontando seu dedo acusador, vai reagir com energia. Não aceitará, nunca mais, ser vítima de preconceito lingüístico. Se a coisa apertar e ela deixar de pagar algum imposto, também não vai levar desaforo pra casa: preconceito tributário, a partir de agora, será inaceitável. E aquele gerentezinho de banco que anda ligando pra ela com ar de cobrador? Que vá com seu preconceito financeiro pra casa da p…

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A concordância subiu no telhado, mas a tirania continua incomodando crianças e adolescentes quando se trata de interpretação de textos. Minha filha me apresentou uma questão do vestibular. Quase poesia, subjetividade total. Mostrei a pergunta a meu pai, que estava ao meu lado. Não sei se aconteceu porque somos de diferentes gerações, mas é fato que cada um dos três interpretou o texto de um modo. Qual o certo? O autor, morto há décadas, jamais poderá esclarecer. Talvez nem ele soubesse dizer o que o professor acha que ele quis dizer. Mas vale a complexa e imprevisível interpretação do mestre, que precisa ser adivinhada pelos alunos.

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Sobre janelas quebradas, flanelinhas e crime de extorsão

09/05/2011

Lugar de político corrupto é na cadeia. Lugar de assaltante também. Seqüestrador e estuprador, atrás das grades, sem dúvida. E dos nossos flanelinhas ou “guardadores de carros” informais? Vamos adiante antes de responder.

Em 1982, James Wilson e George Kelling publicaram um estudo cujo título, em português, seria “A Polícia e a Segurança da Comunidade”. Neste documento, que acabou influenciando muitos trabalhos posteriores e a própria política de segurança pública em grandes cidades americanas, pela primeira vez se associou desordem urbana a criminalidade, naquilo que foi batizado de “Teoria das Janelas Quebradas”. Em 1996, o mesmo Kelling lançou outra obra (em português, se chamaria “Consertando as Janelas Quebradas”), avançou mais um pouco e demonstrou a vinculação entre não repressão a pequenos delitos e aumento da criminalidade violenta.

Um exemplo de como a coisa funciona: pense numa rua simples, organizada e limpa; um dia, por alguma razão, uma família se muda e deixa a casa vazia; um galho de árvore cai e quebra um vidro da janela da frente da casa; não há quem a conserte; quem passa pelo local deduz que ali ninguém se preocupa com isso; dias depois, garotos quebram outros vidros; o mato começa a crescer no antigo jardim; jovens passam a se reunir na varanda da casa abandonada e ali deixam garrafas vazias e restos de comida; ratos aparecem; jovens começam a consumir drogas na varanda sem dono; brigas acontecem; a rua passa a ser vista como local de desordem; a decadência da comunidade fica evidente; desordeiros de outros locais são atraídos; quem tem recursos se muda; jovens passam a cometer, com freqüência, delitos de menor gravidade; a vida na comunidade se transforma num inferno; imóveis se desvalorizam; finalmente, pequenos infratores “evoluem”, se tornam bandidos temidos e controlam o bairro. Em nenhum momento a polícia agiu, pois estava preocupada com problemas supostamente mais importantes.

Resumindo, Kelling demonstra que, assim como o ambiente de desordem estimula pequenos delitos, a tolerância a infrações de menor gravidade leva à criminalidade violenta. Qualquer semelhança com a situação de Salvador, em especial no Centro Histórico, não é mera coincidência.

Há quem diga que esta é uma visão conservadora, típica de estudiosos do chamado primeiro mundo. Pode até ser, mas é fato que a Operação Tolerância Zero, que devolveu a qualidade de vida aos habitantes de Nova York, se baseou exatamente na Teoria das Janelas Quebradas. E funcionou, como pode atestar qualquer pessoa que esteve lá na década de 80 e foi novamente agora. A cidade está segura e organizada.

Mas, voltando aos flanelinhas, o artigo 158 do nosso Código Penal assim define o crime de extorsão: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa.” No mesmo artigo é estabelecida pena de 4 a 10 anos de reclusão e multa. Ainda no Código Penal, lê-se que “Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.”

Não sou jurista, mas tenho convicção de que estou sendo vítima de crime de extorsão cada vez que vou, por exemplo, a um teatro, e tenho que pagar – adiantado – para estacionar meu carro na rua. Os preços são ditados pela quantidade de medo que os flanelinhas conseguem impor. Mulheres tendem a pagar mais caro, assim como idosos. A polícia nada faz. Paga-se para proteger o patrimônio da grave ameaça representada não por estranhos, mas pelos próprios “guardadores”, caso não recebam o valor exigido. Assisti há quinze dias, em frente ao Elevador Lacerda, à seguinte cena: turistas que usavam um carro alugado quase foram agredidos porque, embora tenham concordado com o pagamento de R$ 10,00, se recusaram a fazê-lo adiantado.

O guardador de carros que se faz dono de uma rua, hoje cobra por estacionamento; amanhã exigirá dinheiro para proteger comerciantes; no mês que vem, mais à vontade, instituirá uma taxa de segurança para moradores a assim por diante. E quem não pagar? Ficará “desprotegido” e as chances de sofrer alguma coisa ruim serão quase de 100%. Nenhuma máfia começa grande. A praga vai penetrando no tecido social, até que se torna um mostro invencível.

É aqui que as histórias de Salvador e Nova York precisam se encontrar, antes que seja tarde demais. Na operação Tolerância Zero, mendicância agressiva, “guarda de carros” e até a lavagem compulsória de pára-brisas (sim, essa desgraça existiu em Nova York, com rodinho e tudo, acredite se quiser) foram tratadas como crimes, assim como pichações, e combatidas severamente pela polícia. Delitos pequenos e crimes graves não são independentes. Fazem parte de uma mesma escala que tende a ser percorrida de baixo para cima por quem não encontra barreiras.

Antes que alguém se escandalize, não estou sugerindo que flanelinhas e cia. ltda. sejam recolhidos às penitenciárias, que todo mundo sabe que são verdadeiras escolas do crime. Mas estou propondo sim, com todas as letras, que sejam impedidos completamente de atuar. E digo mais: este é o momento ideal para uma ação assim, pois ninguém vai poder alegar falta de oportunidades no mercado formal. A construção civil, por exemplo, está a todo vapor, continua com perspectivas de crescimento e carente de mão de obra, inclusive sem qualificação. Os órgãos municipais podem muito bem fazer esse direcionamento.

E no caso de quem não quiser mudar de ramo? Aí o Estado, que constitucionalmente tem o monopólio da força, deve agir com a convicção de que a qualidade de vida dos soteropolitanos, com ou sem carro, depende, em boa medida, da firmeza dos seus administradores públicos. Cadeia e pronto! Afinal, extorsão é crime.

Já andaram dizendo que meus textos têm um viés conservador. Conservador, logo eu, que sou apenas um rapaz latino americano, com menos dinheiro no banco que o próprio Belchior. Tudo que eu quero é sair de vez em quando, com meu carro financiado, sem medo de ser extorquido. Já não tenho transporte público decente, não posso andar a pé à noite com medo de ser assaltado (aliás, escreverei em breve um texto sobre a “cassação do direito de passear” em Salvador) e ainda tenho que aceitar ameaças ao sair de carro?

Enfim, sei que é muita ousadia sugerir que um povo tão criativo, orgulhoso e cheio de “baianidade” imite o que se fez numa cidadezinha xexelenta como Nova York. Mas, quem sabe se não pode dar certo?

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Campanha de trânsito, também tenho a minha

29/04/2011

De vez em quando o Jornal Nacional nos mostra que os membros de alguma ONG do Rio de Janeiro, revoltados diante de alarmantes índices de violência, resolveram fazer um protesto colocando cruzes nas areias de Copacabana ou coisa parecida. Dito isso, pensem na seguinte cena: um comboio levando uns vinte bandidos armados até os dentes, dispostos a promover uma chacina na área dos rivais, passa pelo tal protesto e, de repente, o chefe do grupo se sensibiliza com aquelas cruzes, reflete sobre a vida e o amor, desiste da carnificina e dá meia volta. Faz sentido pra alguém? Um protesto desse tipo pode até gerar notícia, mas resultado prático… Admitamos: quem promove violência diretamente não se sensibiliza com coisas desse tipo.

Exageros à parte, penso que uma seguradora está cometendo um erro parecido atualmente – ou um acerto, se a idéia é apenas ficar bem na foto. Digo isso porque recebi da tal empresa, há alguns dias, encartados em diferentes publicações, dois adesivos de uma campanha bonitinha e cara chamada TRÂNSITO + GENTIL. Coisa do tipo “faça sua parte”. Mas será que justamente aqueles motoristas estúpidos ou aprendizes de assassinos que empestam nossas ruas vão se sensibilizar? Vai ser difícil! Acho mesmo que só refletirá sobre o assunto quem já é educado e o ganho para o trânsito tenderá a ser zero!

Mas, como ando me policiando para ser um cara que critica e ao mesmo tempo “constrói alternativas”, pensei bem e estou lançando um movimento que também se propõe a melhorar o trânsito, sem artistas e sem dinheiro, mas muito mais direto e, penso eu, mais eficaz. “TRÂNSITO MENOS BURRO” será o título de minha campanha. Levando a imitação aos limites do intolerável, vou até usar o sinal matemático no lugar da palavra menos. A marca, acabo de desenhar: duas orelhas de burro em uma placa típica de proibições.

Antes que me acusem de ignorar que os problemas do trânsito em Salvador são muito complexos, que tudo tem origem na falta de transporte de massa decente etc., devo dizer que também acho tudo muito complexo, mas, enquanto as grandes soluções não chegam, por que não agir para diminuir o caos?

É claro que não sou um especialista em engenharia de tráfego, mas, como creio que não há ninguém com essa formação na prefeitura de Salvador, me julgo no mesmo patamar de conhecimento técnico das autoridades municipais (quase nenhum) e vou dar meus palpites à vontade.

Fato é que a burrice está muito presente no trânsito de Salvador, seja na atitude do motorista que durante o engarrafamento faz do acostamento pista – e piora a situação de todos –, seja na disputa agressiva por metros de asfalto, promovida pelo animal que fecha o cruzamento e atrapalha o fluxo inteiro. Mas quero me concentrar, até pela restrição de tempo e paciência dos leitores, no inaceitável desprezo que os gestores municipais têm por um problema que me parece evidente: os gargalos em avenidas importantes como a Luis Viana Filho (Paralela) ou a Mário Leal Ferreira (Bonocô). É só desses pontos que hoje quero falar. Pontos de engarrafamento que coincidem com pontos de ônibus mal localizados, ou seja, burrice oficial.

Otacílio, meu amigo politicamente correto, me explicou que ninguém cogita deslocar ou criar grandes recuos para os pontos de ônibus porque essa atitude seria entendida como uma concessão burguesa aos usuários de automóveis particulares em detrimento do glorioso transporte coletivo. O mesmo Otacílio só não soube me dizer quem foi que formulou a tese segundo a qual os enormes engarrafamentos não prejudicam também, e de modo mais intenso, os usuários dos ônibus, que muitas vezes viajam em pé.

Em outras palavras, no vácuo de uma política séria para o transporte de massa em Salvador, criou-se a inacreditável “teoria da intocabilidade dos pontos de ônibus”. Eles estão muitas vezes mal localizados, prejudicam a população inteira, inclusive seus próprios usuários, mas, literalmente, ninguém se mexe. São praticamente vacas sagradas.

Alguns exemplos: 1) na Paralela, quase em frente ao posto de combustíveis nº 1, há engarrafamentos nos dois sentidos. Depois que se consegue ultrapassar os pontos de ônibus, que estreitam a pista, o trânsito volta a fluir, exceto quando há outros problemas mais à frente. Há espaço para construir recuos e já existe até uma pista auxiliar não aproveitada, poucos metros adiante, no sentido Aeroporto-Iguatemi; 2) na mesma Paralela, quem sai do CAB atrapalha todo o fluxo, pois precisa desviar do ponto de ônibus localizado no encontro das pistas. Há muito espaço para construir um bom recuo ou até um pequeno terminal; 3) na Bonocô, quem vem do Ogunjá também precisa desviar do ponto que fica bem na confluência das duas avenidas, estreita a pista e engarrafa tudo. Há espaço para recolocar o ponto mais à frente. 4) ainda na Bonocô, há um ponto próximo ao Posto Mataripe, exatamente onde desemboca o fluxo vindo de Brotas. Ali os motoristas precisam desviar do ponto invadindo a pista já estreitada, com o agravante de que muitas vezes os ônibus em fila fecham completamente a passagem. Já há um recuo poucos metros antes desse ponto de ônibus, livre de obstáculos, mas creio que a “teoria da intocabilidade” impede que seja aproveitado. Até uma antecipação do local onde as pistas se encontram, mudança simples, sem tocar no ponto de ônibus, poderia ser a solução.

Em todos esses casos, as paradas de ônibus estão colocadas exatamente no ponto de confluência de avenidas importantes, em nome de uma suposta comodidade para seus usuários que, no fim das contas, pagam, sob a forma de engarrafamento, atraso e cansaço, o preço dessa irracionalidade.

Enfim, minha humilde campanha “TRÂNSITO – BURRO” já terá sido um sucesso se conseguir apenas que se reconheça que uma parte dos engarrafamentos é causada por irracionalidades oficiais, a exemplo da má localização de pontos de ônibus, que se estude com seriedade o assunto e que, pelo menos, se tente resolver o problema.

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A Música e o Cachorro

18/04/2011

Será que alguém já viu um gênio desses que dirigem carros com equipamentos de som ensurdecedores ouvindo Vivaldi ou Mozart? Ou um Tom, seja Jobim ou Zé?

Duvido. Não por acaso, todos escutam música de qualidade diretamente proporcional ao respeito que dedicam aos outros cidadãos. Falta de educação e mau gosto andam juntos. E o pior: alimentam-se mutuamente, o que me faz imaginar que em breve não haverá em Salvador um só metro quadrado protegido do alto som dos pagodões.

(Não posso julgar o gosto dos outros, essa é uma visão preconceituosa, blá blá blá… blá blá blá… quem quiser reclame à vontade, mas aviso de antemão que não darei importância.)

Pensei nisso domingo à noite. Na rua, pouca luz, pouco movimento, eu e meu cachorro. Tudo calmo, até que de repente apareceu um carro vermelho conduzido por um menino amarelo. No banco do carona, outro rapaz. Janelas abertas, potência quase de trio elétrico e música horrível. Se o cachorro de Roberto Carlos e Erasmo sabe “sorrir latindo”, posso dizer que naquele dia o meu reclamou latindo. Pois é. Até ele, que antes de domingo, em diversas situações, se mostrara portador de um gosto duvidoso, rejeitou aquela poluição sonora.

Ora, não sendo possível que o motorista estivesse confortável dentro de um carro com um som naquela altura, o que o fez (ou sempre o faz) se comportar assim? Respondo sem ouvir os especialistas do Fantástico: 1) vontade de despertar a admiração de outros seres igualmente cretinos, numa espécie de ritual de acasalamento entre machões barulhentos; 2) a mesma falta de educação, citada no primeiro parágrafo, que nutre seu mau gosto.

Temos então duas motivações. Sobre a primeira não escreverei nada. Não me sinto confortável opinando sobre o comportamento amoroso das pessoas. Com relação à falta de educação, falo à vontade, combato e proponho.

Se não existe, é preciso que se crie legislação de trânsito proibindo que qualquer ruído oriundo de equipamento de som ultrapasse os limites das janelas do próprio veículo emissor, sob pena de imposição de multa de milhares de reais. Quem quer ouvir música em alto volume que se feche dentro de seu carro. Impossível fiscalizar? Que nada. Com a popularização das câmeras, inclusive em celulares, tudo que acontece nas ruas hoje é passível de ser filmado por inúmeros cidadãos. As provas dos crimes seriam abundantes.

Ah, mas já existem leis demais… e se tudo é um problema de educação, na medida em que a sociedade evolui, essas questões tendem a se resolver, diria um amigo meu que pra tudo tem uma opinião aparentemente equilibrada, chata e politicamente correta.

Pois então, Otacílio, fique acreditando que a educação está melhorando em Salvador e espere sentado pelo dia em que ninguém vai incomodar você com um som alto ou os carros vão passar tocando a 9ª de Beethoven.

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Cova de Anão – Uma coluna rara e rasa
João Aslan é administrador ( jbaslan@uol.com.br ).

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4 Respostas to “Cova de anão, por João Aslan”

  1. Roberto Lerner Says:

    João, parabéns pelo excelente texto e também por tratar de um assunto que afeta a todos nós.

  2. Alex MacAlcan (Planserv) Says:

    Sr. João, o texto remeteu-me às várias situações que enfrentei com os ditos donos das ruas. Perfeito! O texto tratou a respeito de muito o que penso, mas sem a condição de transpor para o papel… Espero que não haja problema caso eu deseje replicá-lo.

    Saúde, Paz, Força, Muita Luz e um Forte Abraço!!!

  3. Paula Ferreira. Says:

    João parabéns pelos textos… assuntos importantes, mas tratados pela nossa sociedade com desprezo ou talvez aceitação.
    Gostaria de salientar que em relação ao som ensurdecedor, existe hoje uma nova adaptação… para aqueles que não possuem carro, existe o “coletivo”… ouvir som do celular às alturas, compartilhando qualquer tipo de música e submetendo aos demais passageiros ouví-la durante a viagem, um horror!!. Vai ser preciso adotar nos onibus a placa de: Proibido som…


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