Poesia, por Muadiê Maria

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Mães

08/05/2011 

Nem todas as mães
são santas,
nem todas as santas
são mães;
mas, de quedas, prantos
e sóis soluçantes
as colinas de mães sozinhas
fervilham neste instante.
Ó vós, que ainda tendes
dentro da noite o choro fino,
a febre e os miúdos braços
afirmando no escuro
vosso sangue e a aurora
que vos sucederão,
ainda é tempo de agarrar-vos
ao pequeno e vivo troféu
e, contra as raivosas manhãs,
esquentar o leite,
vestir os filhos
e não perder a esperança.


Alberto da Cunha Melo



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“Às vezes, quando eram pequenos, a mãe os levava para ver a noite na estação seca. Dizia-lhes para olharem bem o céu, azul como se fosse pleno dia, aquela claridade da terra até o limite da vista. Para ouvirem também os ruídos da noite, os chamados das pessoas, seus risos, seus cantos, os lamentos dos cães também, mal-assombrados pela morte, todos aqueles apelos que representavam ao mesmo tempo o inferno da solidão e a beleza dos cantos que representavam esta solidão: era preciso também escutá-los. Que o que se costumava esconder das crianças, ao contrário, era preciso dizer-lhes, o trabalho, as guerras, as separações, a injustiça, a solidão, a morte. Sim, esse lado da vida, ao mesmo tempo infernal e irremediável, era preciso também mostrá-lo às crianças, era como olhar o céu, a beleza das noites do mundo. As crianças frequentemente pediam à mãe que explicasse o que entendia por aquilo. A mãe sempre respondera que não sabia, que ninguém sabia. E que também isso era preciso saber. Saber, antes de tudo, isto: que não sabemos nada. Que mesmo as mães que diziam aos seus filhos que sabiam tudo, não sabiam.”
Marguerite Duras - O Amante da China do Norte Foto: Haroldo Abrantes ______________________________________________________________________ Muadiê Maria ou Martha Galrão ou vice-e-versa publica aqui  gente conhecida  ou ou não. Publica também a série Momentos poéticos baianos. _____________________________________________________________________________________

Pensa, Whitman

21/04/2011

Pensa, Whitman, a poesia triunfou.
O homem só pode viver do que sonha,
e de sonhos é composta toda a trama
que há em volta. Toda maravilha
do mundo.

Calcula, Whitman. Toda a extensão do teu amor
não abarca a extensão do que veio e virá
para além dos teus versos. Mas
o amor, Whitman, foi inventado pela poesia,
e a ela deve tudo. A poesia
triunfou.

Nilson Galvão

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Vídeo com este poema editado pela pela  Plataforma para a poesia


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Momentos poéticos baianos – 3

20/04/2011

Carro quebrou na 101, tivemos que pernoitar em Cachoeira, e o capô não queria abrir, acredita? O capô do carro não queria abrir !?!
Aquela equipe de homem reunida em frente ao carro pra resolver.

Fiquei tentando convencer a todos, inclusive a mim mesma, que deveríamos nos jogar de cabeça no imprevisto de estar numa cidade históóóórica. Até banho frio eu tomei – sem reclamar. Em algum lugar de mim havia felicidade e muita saudade de Leila.
No outro dia, pneu do carro furado. Foi um fim de semana estranho…

Às duas da tarde do sábado, eu, bem melhor da puta enxaqueca que acordei de manhã, ouvi um grito: olha a mulher!

A mulher era eu, que caminhava incauta pela rua… A morte passou zunindo por meu ouvido.

Um homem jogou do alto do telhado de um sobrado azul, mais ou menos 6m de altura, a grande calha de zinco.

Pela primeira vez na vida fiquei perplexa. Pensei: pôxa, então o plano era esse? Me trazer à Cachoeira pra eu morrer?
Lá ele. Diga a ela que eu tô forte.
Senti saudade de todos os meus amigos de infância.

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10 Pontes19/04/2011

O livro de poesias 10 Pontes, o primeiro de Raiça Bomfim, com ilustrações de Vânia Medeiros, será lançado amanhã, 20, às 20 horas, no Bar D’Venetta, na Rua dos Adobes, 12, no Santo Antônio além do Carmo.  Clique na poesia acima para ler o restante do livro.

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Mundo grande

14/04/2011

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

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Condições nem tanto objetivas

Alberto da Cunha Melo

Tudo isso aconteceu
enquanto os sóbrios
chegavam cedo em casa
para alcançar os filhos acordados.

Tudo isso aconteceu
enquanto os mansos
apertavam nas mãos
o cascalho de ferro
para não matar
os que matavam em paz.

Tudo isso aconteceu
enquanto os justos
consultavam “O Eclesiástico”
para dividir a castigo
em partes iguais.

Tudo isso aconteceu
enquanto o amor, o trabalho
e outras desculpas verdadeiras
se tornavam a ponte
para que isso acontecesse.

Ouça aqui  o poema na voz de Drummond

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Momentos poéticos baianos -2

02/04/2011

Hoje, no mercado, encontrei a peixaria sem atendente. Parei e fiquei esperando ele aparecer. Um funcionário que estava no box ao lado gritou para dentro do frigorífico:
– Davi, tem cliente aqui!
– É homem ou mulher? A voz de Davi ecoou.
– Mulher!
Imediatamente ele apareceu.

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Momentos poéticos baianos

31/03/2011

Grande escola particular e católica em Salvador, 26 de maio de 2009. É dia de Maria, a imagem de Nossa Senhora vai para a sala de aula e é recebida com flores e velas. Um menino pergunta:
– Professora, faz o que com essas flores?
O colega responde:
– Joga no mar pra Iemanjá.

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Não sei quantos seremos, mas que importa?!
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui,no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto,esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga

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As casas

Ildásio Tavares

As casas desta cidade,
suas coroas farpadas,
são cemitérios
de vivas almas penadas.

Escondidas por detrás
destes espinhos,
os seres desta cidade
em túmulos fazem ninhos.

Os seus projetos
de cama e mesa propícia
são dirigidos por máquinas
de engrenagem subreptícia.

E, assim, nas rodas,
das rodas gira
quem muito te ama
e te admira.

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Muadiê Maria ou Martha Galrão ou vice-e-versa publica aqui  gente conhecida ou não.

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