Salvador, por Haroldo Abrantes

Cabeças de Porco

24/04/2011

Por Haroldo Abrantes

Além do peixe, da comida com dendê e dos ovos de páscoa, dos babas-de-saia e das celebrações religiosas, uma outra tradição se repetiu no feriadão da Semana Santa, o hábito de sair da capital em busca de algum dos inúmeros paraísos que nosso estado possui, seja ao norte, sul, ou noroeste.

A novidade deste ano ficou por conta da cobrança do pedágio em todas as estradas que circundam Salvador. Daqui prá frente, o caminho para o paraíso interiorano, além de estar mais caro, exigirá uma boa dose de santa paciência e (mais) conformismo para chegar ao almejado destino.

Se a escolha for o sistema ferry boat, o viajante corre o risco de ficar à deriva na Baía de Todos os Santos, depois de longa espera na fila que se forma em frente à fantástica Feira de São Joaquim, um dos lugares mais pulsante, singular e original de Salvador.

No dia 15 deste mês a coluna de Levi Vasconcelos, no jornal A Tarde, trouxe a informação que o deputado federal Nelson Pelegrino (PT), coordenador da bancada baiana no Congresso está correndo contra o tempo para conseguir salvar a maior parte dos R$ 300 milhões apresentados pelos parlamentares baianos no Congresso Nacional. Santa Competência, deputados. Dentre estes, estão 32 milhões destinados ao projeto de requalificação da Feira de São Joaquim.

Sem saber do resultado dos esforços do nobre deputado, na semana passada, andei por alguns dos corredores da Feira de São Joaquim e o mínimo que posso dizer ao parlamentar petista é que, por favor, não deixe essa verba escorrer pelo ralo. A Feira está bastante deteriorada, necessitando melhorias na higiene e nas instalações. Quem conhece a dimensão da Feira sabe que não é preciso recorrer a números para expressar a importância que este centro de abastecimento tem para grande parte da população da cidade. Evoco também a importância cultural e histórica do lugar.

Por lado, quem viajou pela BR-324, na quinta-feira santa, enfrentou um engarrafamento de 70 quilômetros, cinco horas até a cidade de Feira de Santana. Coisa que era de paulista, agora de baiano também.  Tem gente dizendo que o congestionamento da BR foi por conta do posto do pedágio, Será?

Enquanto esboçava estas frases e pensava no dilema entre escolher a morosidade do ferry ou o engarrafamento da estrada pedagiada cheguei a pensar que o ditado, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, se encaixaria bem nessa situação. Só que na verdade não é bem isso, porque quem ficou em Salvador no feriadão, como eu, pôde desfrutar de uma cidade mais vazia e silenciosa e um clima ameno por conta das chuvas de outono.

Foto: Haroldo Abrantes

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Bicicletas e outras acrobacias do futebol

10/04/2011

As chuvas de outono chegaram e Aurélio não pôde ir para o trabalho em sua bicicleta, nem Rina para a escola em sua magrela.  Eles tiveram de pegar o velho e nada bom buzu e enfrentar os engarrafamentos que ficam piores nos dias de chuva.
Esta semana ouvi o prefeito João Henrique perguntar para si mesmo quanto tempo levaríamos (lá ele) para construir uma segunda etapa do metrô. “Mais onze anos?”.
Em outro canto da cidade escutei um parlamentar governista do PT afirmar que a cidade não pode se submeter aos interesses de grupos econômicos. “São os grupos econômicos que têm de se adequar aos interesses da cidade e isto não vem acontecendo”. Na mesma reunião um outro parlamentar,  que já foi prefeito e agora é deputado federal da oposição, denunciou o lobby dos donos dos buzus como co-responsável pela falta de um transporte de massa eficiente na cidade.

A Copa do Mundo da Fifa de 2014 usará nossa cidade como subsede de alguns jogos. Não sabemos quantos ainda. Existe a possibilidade de acontecer também partidas da Copa das Confederações, da Fifa, no ano de 2013. A realização de partidas desses torneios internacionais da Fifa parece que é nossa principal esperança de alguma solução para o nosso grave problema de mobilidade urbana. É uma exigência da Fifa que a cidade que sediar jogos de seus torneios tenha bons transportes de massa e isso tem motivado os governantes do estado e município a pensarem em alternativas para a massa que anda de transporte público em Salvador. Nesta “massa” estão incluidos Aurélio e Rina, em dias de chuva.

Louvemos a Fifa e seus torneios.

O problema é que até agora os governistas do estado e municípios ainda não conseguiram decidir qual será o projeto a ser implantado. O prefeito defende a implantação de BRT´s, que quer dizer, corredores exclusivos para ônibus exclusivos, os BRT´s (bus rapid transport). Solução apontada como mais barata e mais rápida execução. Esta é uma solução que deu certo em Bogotá na Colômbia, diz o prefeito JH.

Do outro lado da disputa está o senador Walter Pinheiro, capitaneando as pretensões dos governistas estaduais. Defende a implantação de VLT´s, veículos leves sobre trilhos, que dizer, trens, metrô. Na verdade ninguém duvida que a solução VLT, trens, metrô, seja a melhor. A dúvida é se seremos (lá eles) capazes de construir uma segunda etapa do metrô antes da Copa de 2014. O prefeito João Henrique afirma que só a licitação para execução das obras levará seis meses, no mínimo.

Há algum tempo venho sugerindo em conversa com amigos que deveríamos esquecer o sonho de ter um metrô em Salvador. O que já foi construído seria implodido, como fizeram com a Fonte Nova, no lugar construiríamos de volta as pista exclusivas de ônibus, que existiam antes da obra do metrô, antes de descobrirmos os BRT´s colombianos. Essa opção também resolveria o problema do preço da passagem de um metrô de apenas seis quilômetros (o menor do mundo?). Uma outra solução serviria apenas para os dias de jogos da Copa da Fifa. Decretaríamos feriado, ninguém andaria de carro, somente bikes, motos e ônibus, nos três dias que tiverem jogos da Copa 2014, aqui em Salvador.

Apenas três jogos, foi o que escutei por aí.

Foto: Haroldo Abrantes

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Passado, presente e futuro

Dia de aniversário me leva a pensar sobre o passado, presente e futuro. O tempo, afora o sentido da vida, é uma das coisas que mais me intriga. Não podemos pará-lo, nem voltar ou adiantar. O passado é o que já passou, o futuro o que virá, e o presente é o que será passado e já foi futuro. Sendo assim é o presente que deveria nos interessar mais. Ele reúne os três tempos no mesmo instante. Mas o passado influencia o presente e também o futuro. O futuro depende do passado e também do presente que já foi futuro e será passado. Muito doido isso do tempo.

Muitas vezes fico pensando se pudesse voltar no tempo que momento de minha própria vida eu escolheria. Cada vez que penso escolho um dia, um acontecimento diferente, não para fazer algo diferente, apenas para vivê-lo novamente. Experimentar novamente as boas sensações que ficaram gravadas na memória. Hoje é o aniversário de Salvador, quer dizer que há 462 anos um grupo de portugueses chegou neste pedaço de chão e decretou que aqui seria construída uma cidade. É neste fato que nos baseamos para dizer que esta cidade tem 462 anos.

Com relação a Salvador penso que muitos de nos tem certeza de que momento escolheria para voltar no tempo. Seria para o tempo da mítica Salvador de Caymmi? Qualquer que seja a sua resposta isso não muda nada no tempo presente. Nestes dias de hoje sabemos que a cidade não está muito boa. Não preciso nem mencionar do que se trata para continuar adiante. O fato é que não sabemos realmente o que fazer para reverter essa situação.

Às vezes somos tentados a achar que a solução deve vir dos governantes, estes que são escolhidos em eleições nada democráticas e recebem salários gordos e outras vantagens para administrar com um mínimo de competência a cidade. Essa ilusão eu pessoalmente arquivei por um tempo. Não tenho esperanças de que um Pelegrino ou ACM júnior, Edvaldo Brito, Bassuma ou Geddel queiram mudar os rumos do crescimento dessa metrópole. Prevejo que no futuro este tempo que estamos vivendo será lembrado, transcrito, pelos historiadores como o do ciclo do Axé. Um ciclo que está acima dos políticos.

Então o que fazer? Em quem ou o que acreditar, não sei, claro, até mesmo porque os problemas de nosso tempo não se restringem ao perímetro da cidade, a crise é  mundial e blá blá blá blá….

Ontem foi o aniversário de Martha e Jumara, duas típicas soteropolitanas, sábado tem festa, duas talvez, cantarei parabéns e brindarei também por Salvador.

Foto: Avenida Barros Reis, década de 1980.

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Caros M. Gusmão e J. Pires

Demorei para responder o e-mail convite para participar do site com fotos de Salvador porque ando um pouco revoltado com meu lado fotógrafo e por isso não tenho conseguido fazer nada autoral, digamos assim. Não vou entrar em detalhes das razões dessa revolta, digo apenas que a cada dia sinto mais dificuldade para fotografar do jeito que me pedem para fazer e isso tem bloqueado meu lado autoral. Com a chegada das câmeras digitais a situação está pior ainda. Hoje, por exemplo, precisei fotografar umas frutas para uma matéria que falava dos benéficos trazidos pelas vitaminas no combate à gripe que afeta as pessoas no início do outono. Coisa simples não? Nem tanto, a dona do horti-fruti da Ceasa do Rio Vermelho, só permitiu que as fotos fossem tiradas depois que garanti que não mostraria a loja desarrumada e que mostraria as fotos no visor da câmera. Era pegar ou largar. Peguei, estava com pressa, era sábado e o jornal de domingo roda cedo. E o que dizer das fotos publicadas nos sites de notícia da Operação Nordeste, realizada pela PM baiana? Nossa “Invasão do Morro do Alemão”. A PM aparece com suas metralhadoras salvando a população do bairro das garras dos traficantes. Imagens de uma PM brilhante e heróica entrando triunfal na casa do inimigo. Imagens de uma PM salvadora, estreando sua máquina mortífera baianamente batizada de Miseravão.  E nós sabemos que não é isso que está acontecendo. Infelizmente ou felizmente não consigo mais compactuar com essa versão dos fatos.

Tenho uma contraproposta para lhe fazer. Acontece que meu lado antropólogo tem suplantado o de jornalista – fotógrafo, meu interesse por esses dias é escrever sobre a vida em Salvador. Gostaria de participar do site, quem sabe, com uma coluna, escrita por um antigo observador participante da vida nessa cidade. Não nasci aqui, mas acredito que conheço a cidade mais do que outros muitos moradores. Quer um exemplo? Eu estava na reinauguração da Fonte Nova em 4 de março de 1971, quando um boato de que o estádio estava desabando provocou uma correria generalizada, pessoas se jogando de um andar para outro, resultando na morte de duas pessoas e dois mil feridos,  um dos fatos marcantes da cidade que eu presenciei.

Caríssimos Marcus e Josias, como escrevi na etnografia que apresentei para o mestrado em antropologia sobre o trabalho dos cordeiros de bloco, há vinte seis anos sou obrigado a participar do carnaval baiano, este evento que gostando ou não é emblemático para a sociedade soteropolitana. Como bem coloca o sociólogo Milton Moura, “A cidade do Salvador se diz a si prórpia e ao mundo em seu carnaval“.

Se a ideia de uma coluna não for possível, pense em outra forma de participação, não com fotografias, obviamente, mas com textos.

Haroldo Abrantes

NR: Nasce assim a coluna Salvador, por Haroldo Abrantes
Foto: Cordeiro (Haroldo Abrantes)

Uma resposta to “Salvador, por Haroldo Abrantes”


  1. Querido Haroldo,
    como é bom ler notícias suas. Saudades de vc, do seu “jeito de olhar” e,consequentemente, de suas FOTOS!! Minha passagem pelo Correio não teria sido a mesma sem teu trabalho e de outros queridos parceiros que, literalmente, “salvaram muitos bobós”! Depois, achava divertida e profunda as nossas conversas naquelas diligências matinais. Li com certa angústia o seu depoimento sobre o trabalho autoral… Contudo, vejo que vc já está dando nó em pingo d’agua tocando um mestrado (achei o tema instigante) e essa coluna. Volto aqui para te ler/ver mais vezes. Grande beijo, beijo em Pri.


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